Meguilat para jovens
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Capitulo I Capítulo VI
Capítulo II Capítulo VII
Capítulo III Capítulo VIII
Capítulo IV Capítulo IX
Capítulo V Capítulo X, XI, XII, XIII

 

 

Adaptado por Malka Touger
Traduzido pela Editora Chabad

Capítulo I

O palácio real em Shushan fervilhava de atividade, o ar repleto de alvoroço. O rei Achashverosh havia acabado de ordenar um banquete inigualável em beleza e preço. Centenas de criados esfalfavam-se de lá para cá, ansiosos para obedecer as ordens do rei.

Lá fora, os jardins encantadores floresciam em mil perfumes, enquanto eram preparados para receber os numerosos hóspedes que viriam de todo o reino. Pashda, um artesão habilidoso, cuidadosamente pendurava tecidos finos e coloridos. Lentamente, prendia as delicadas fazendas brancas, azuis e verdes às majestosas colunas de mármore, usando cordões de linho e lã púrpura.

Chamando da escada, Pashda tentava atrair a atenção do ajudante, Razmir. Porém, em vez de assisti-lo, Razmir observava os outros serventes que colocavam divãs de ouro e prata em fileiras ao longo do piso de mármore colorido.

"Psiu, Razmir! Passe-me outro pedaço de cordão, está bem?"

"Perdoe-me, Pashda" – disse Razmir, em tom de desculpa. "É que tantas coisas estão acontecendo aqui. Distraí-me, observando todo este movimento."

Pashda meneou a cabeça. "Não havia tal rebuliço por aqui desde a coroação do rei Achashverosh" – disse ele.

Razmir bem se lembrava daquela ocasião. O rei havia sido coroado numa cerimônia esplêndida, que ostentava beleza e fausto. O rei parecia quase desesperado para ser aceito como imperador da Pérsia e Medéa, governante de 127 países ao redor do mundo. Razmir refletia…

"Você sabia?" – zombou Pashda, enquanto prendia outro tecido. Abaixando a voz, sussurrou: "O rei Achashverosh é na verdade um plebeu. Não há nenhum sangue azul correndo em suas veias. Lutou para conquistar o trono e controlar os tesouros reais. Apenas casou-se com Vashti, descendente de reis, para fortalecer seu direito ao trono persa."

"Mas Vashti é da Babilônia" – disse Razmir. "Como veio para a Pérsia?"

"As origens de Vashti e aqueles imensos tesouros estão relacionados. Na verdade, toda essa agitação de hoje no palácio é parte da mesma história" – explicou Pashda com ar superior.
O pobre Razmir era apenas um servente, e os segredos do palácio real estavam além de seu conhecimento. Sua curiosidade fora aguçada, e implorou ao bem informado Pashda que lhe contasse mais detalhes.

"É uma longa história e temos muito trabalho a fazer" – replicou Pashda com um sorriso dissimulado. "Mas se você conseguir-me uma amostra dos quitutes sendo preparados na cozinha, contarei mais na hora do almoço."

Razmir assentiu obedientemente, ansioso por ouvir o restante da história. Neste ínterim, outros preparativos estavam sendo providenciados. Mesas com esculturas e decorações luxuosas estavam sendo postas com utensílios de bom gosto. Acima do clangor vindo das baixelas repletas, Razmir podia escutar as conversas dos garçons.

"Olhe para todas essas taças de ouro! Não conseguiremos terminar de arrumar todas antes do Juízo Final! É necessário colocar tantas?"

"Bem, você sabe que o rei Achashverosh ordenou que um copo não seja usado duas vezes, então devemos preparar um suprimento bem grande."

"Que desperdício! Adivinhe só quem vai lavar toda a louça…"

"Na verdade, ouvi dizer que o rei permitirá que cada convidado guarde o copo em que beber; e a cada vez que for servido, receberá um novo!"

"É verdade? Bem, tanto melhor para nós. É uma pena que não lhes dê os pratos também! Veja, haverá milhares de pratos e travessas aqui, e temos que colocar jogos individuais! Se pudéssemos empilhar tudo, como sempre fazemos, seria bem mais fácil."

"O rei Achashverosh deseja que todos os hóspedes sintam-se tão confortáveis quanto possível. Com jogos individuais, cada pessoa pode comer a seu bel-prazer – sem precisar empurrar, abrir caminho ou engalfinhar-se pelo próximo prato."

"Olhe, onde estão aqueles copos enormes que são sempre colocados em banquetes reais? Sabe, aqueles que são enchidos de vinho e que cada convidado é forçado a esvaziar."

"Você não soube? O rei ordenou que este costume não seja mantido nesse festim. Nesse banquete, cada convidado pode beber muito ou pouco, como desejar."

"Que alívio! Odeio ver aquelas pobres pessoas inocentes passando mal por causa de nossa ‘generosa’ rotina de bebida."

Houve uma pausa na conversa enquanto os garçons se esgueiravam pelas fileiras de mesas, destramente balançando pilhas de travessas em enormes bandejas.

De repente, o ruído de engradados chocalhando causou um rebuliço no pátio. Todos se voltaram para ver o que estava sendo trazido com tanto cuidado. Os engradados foram abertos com extremo cuidado pelo próprio chefe dos garçons.

"Ah!!"

"Oh!!"

"Puxa"

"Olhe para esses belos utensílios!"

"Até mesmo as mais finas travessas reais empalidecem em comparação."

"De onde vêm?"

Olhos zombeteiros voltaram-se na direção do ignorante que perguntara. O pobre Razmir achou-se rodeado por rostos sarcásticos.

"Idiota! Não sabe que estas peças vêm do Templo dos judeus em Jerusalém?"

O rosto de Razmir ficou escarlate de vergonha. "Como puderam estes objetos maravilhosos sequer chegarem aqui?" – pensou. Não ousando exibir mais de sua ignorância, decidiu perguntar a Pashda, e correu de volta para suas tarefas.

Após o que pareciam horas, um supervisor oficial anunciou o tão esperado descanso para almoço. Razmir manteve a promessa a Pashda e, enquanto os dois relaxavam, mastigando ruidosamente os quitutes roubados, Pashda continuou sua história.

"Quando o poderoso rei da Babilônia, Nevuchadnêtsar (Nabucodonosor), conquistou Jerusalém, destruiu o Templo e saqueou os tesouros. Os vasos sagrados e utensílios de ouro foram trazidos para a Babilônia e guardados nos cofres reais.

"Agora que o povo judeu fora exilado, seu Templo destruído e sua terra esvaziada, eles não mais representam imediata ameaça ao rei da Babilônia. Havia, porém, algo que pairava como uma nuvem escura sobre a cabeça de Nevuchadnêtsar. Embora desejasse considerar o povo de Israel condenado para sempre, as palavras do profeta Yirmiyáhu (Jeremias) ecoavam em seus ouvidos: "Pois assim diz D’us: ‘Após se completarem setenta anos, considerarei e manterei Minha boa promessa de trazê-los de volta a este lugar.’

"Nenhum rei babilônico poderia estar a salvo até que setenta anos se passassem com a promessa permanecendo não cumprida. Assim que este prazo se esgotasse, poder-se-ia assumir que D’us se esquecera do povo judeu e não iria vingar a destruição do Templo."

Razmir ouviu com muita atenção, embora não pudesse evitar pensar o que tudo isso tinha a ver com a festa. Pashda continuou; "Nevuchadnêtsar morreu e os tesouros de Jerusalém foram guardados pelos reis da Babilônia que o sucederam. Passaram-se os anos e Belshatsar assumiu o trono da Babilônia. No terceiro ano de seu governo, seus conselheiros calcularam que os setenta anos de exílio haviam terminado. Pelos seus cálculos, não havia sinal algum do retorno dos judeus à sua Terra natal.

"Belshatsar ficou radiante e promoveu um grande banquete. Ordenou que os utensílios do Templo fossem usados para a festa como sinal de sua completa vitória sobre os judeus e seu D’us.
"De repente, em meio à ruidosa farra e bebedeira extravagante, algo apareceu escrito na parede do salão. As palavras eram aramaicas, escritas em letras hebraicas: ihxrpu ke, tbn tbn (menê menê tekel ufarsin), i.e., medido, medido, pesado e dividido.

"Belshatsar entrou em pânico. Queria desesperadamente entender as palavras, mas não conseguia lê-las. Finalmente mandou chamar Daniel, um sábio judeu e ministro da corte, que disse ao rei o significado das palavras. O reino de Belshatsar estava condenado e seria conquistado por seus piores inimigos, os persas. Estava sendo punido por fazer uso pessoal dos recipientes do Templo Sagrado.

"Quando Belshatsar ouviu a interpretação de Daniel, ficou muito assustado. E se Côresh (Ciro) e Daryávesh (Dario), os reis da Pérsia, mandassem assassinos para matá-lo durante o sono? Por esse motivo emitiu um decreto, ordenando que qualquer um que tentasse entrar no palácio seria morto – mesmo se afirmasse ser o rei em pessoa!

"Naqueles dias, não havia banheiros no palácio. Até mesmo o rei usava as instalações externas. Aquela noite, o rei levantou-se. Os guardas não o viram sair; assim, quando tentou reentrar no palácio, impediram-no. Arrogantemente anunciou ser o rei; porém, estava escuro, e o escravo não prestou atenção a seus protestos. Sem hesitação, prontamente decapitou Belshatsar. Ninguém culpou o escravo pelo que havia feito; apenas tinha seguido as ordens do rei.

"Esperando ser recompensado, o escravo dirigiu-se a Dario e Ciro, informando-os que Belshatsar tinha morrido. Os persas irromperam no palácio real e ordenaram que cada membro da família de Belshatsar fosse morto.

"A jovem filha de Belshatsar, Vashti, estivera profundamente adormecida até ser acordada pelo tumulto. Vendo pessoas matando-se umas às outras e não sabendo o que fazer, correu ao quarto de Belshatsar, atirando-se aos pés de Dario, pensando que fosse seu pai. Quando Dario viu a jovem frenética a seus pés, apiedou-se dela e poupou sua vida. Ela foi levada à Pérsia como cativa, mas tratada com respeito por causa de sua ascendência real.

"Bem, quando Dario descobriu que Belshatsar havia sido morto como resultado de suas próprias ordens, percebeu que a morte fora claramente um ato de D’us. Entendeu que Belshatsar fora morto por causa de seu desrespeito ao Templo e pelo uso de seus utensílios. Dario prometeu, então, que assim que se sentasse no trono da Babilônia ordenaria que o Templo fosse reconstruído e os vasos sagrados devolvidos.

"Ocupado com a administração de um novo reino, porém, Dario esqueceu sua promessa até ser dela lembrado por Zerubavel, um líder judeu. Dario nomeou seu genro, Ciro, rei da Babilônia e Medéa ainda durante sua vida, instruindo-o a providenciar para que o Templo fosse reconstruído imedia-tamente.

"Ciro cumpriu as ordens do sogro. Os judeus começaram a erigir as fundações do Templo, e o próprio Ciro pagava o salário dos operários. Porém, dois anos e meio depois, Ciro morreu.
"Achashverosh, um plebeu, embora poderoso, lutou e subornou para abrir seu caminho ao trono. Porque queria fortalecer sua posição, desposou Vashti, que era de família real, e reforçou as leis com mão de ferro. Em todos os 127 países, seus súditos tinham que curvar-se à sua força e autoridade."

Pashda fez uma pausa e relanceou os olhos pelo enorme relógio de sol no centro do jardim. A folga para almoço estava quase terminando, e precisavam voltar ao trabalho. Limpou as migalhas das roupas e levantou-se.

"Oh, por favor! Termine a história. Ainda não sei qual é o motivo dessa festa!" – gritou Razmir.

"Descubra por si mesmo!" – replicou Pashda com afetação. Razmir olhou-o, perplexo.

"É tão óbvio!" – explicou Pashda num tom simpático a seu ajudante agastado. "Lembra-se da promessa dos setenta anos? O rei Achashverosh está muito preocupado pela fraqueza de sua posição. Acredita que Belshatsar tenha errado no cálculo dos setenta anos, e por isso tenha encontrado um fim tão infeliz. No entanto, de acordo com seus próprios cálculos, os setenta anos terminaram. Como os judeus não foram redimidos, a ameaça ao reino da Babilônia, que agora é o império persa de Achashverosh, foi finalmente afastada.

"O governo de Achashverosh está seguro agora. A festa é para celebrar esta vitória. Porém, como é plebeu, quer convencer o povo que é verdadeiramente digno de seu trono. Precisa impressio-nar a todos com sua grande riqueza. Esta é a razão por trás deste banquete magnífico. Usar estes utensílios do Templo demonstrará que está livre da ameaça da maldição dos setenta anos."
Razmir assentiu. Tudo fazia sentido agora. Os dois se levantaram para continuar o trabalho.
Entretanto, ainda havia algumas dúvidas na mente de Razmir. Será que os judeus haviam terminado de construir seu Templo? Se haviam, por que os utensílios nunca foram devolvidos? Os setenta anos realmente haviam passado?

Quando perguntou ao amigo, Pashda deu de ombros. "Na verdade, não sei o que aconteceu. Tudo que posso dizer é que os utensílios aqui estão, e ainda há muitos judeus vivendo espalhados pelo reino. Talvez após a morte de Ciro, não tenham tido dinheiro suficiente para continuar a reconstrução do Templo e o trabalho tenha parado."

Pashda não sabia o último capítulo dessa história. A reconstrução do Templo havia, de fato, parado, mas não por falta de fundos. Quando Achashverosh assumira o trono, foi abordado por uma comissão de três homens; Sanbalat, Tobia e Shimshi, o escriba, um dos filhos de Haman. Presentea-ram-no com uma requisição assinada, a respeito do Templo judeu.

"Se os judeus forem autorizados a reconstruir as muralhas de Jerusalém" – dizia a carta – "uma grande rebelião acontecerá. Sua Majestade sabe como as muralhas eram inquebráveis.
Nevuchadnêtsar somente conseguiu conquistar a cidade após um grande cerco; quando a tomou, mandou destruir as muralhas e exilou os habitantes. Somente então, ele e seu exército puderam sentir-se a salvo.

"Majestade, não deve permitir que os judeus reconstruam a cidade. Se o fizerem, irão rebelar-se e recusar-se a pagar taxas e tributos. Somos seus súditos leais e estamos preocupados com o bem do reino. Não queremos que o rei sofra qualquer perda. Por isso, aconselhamos que a permissão para a reconstrução do Templo, anteriormente assegurada por Ciro, seja revogada."

A carta havia sido enviada a mando de ninguém mais que Haman, o Agaguita, conselheiro do rei, que se apresentou pessoalmente perante Achashverosh e explicou como a construção do Templo causaria grande dano ao monarca.

O argumento de Haman estava de acordo com sua cruel linhagem. Agag, ancestral de Haman, foi o último rei de Amalek, a nação que atacara o povo judeu durante sua viagem através do deserto. Ao longo da história, eles haviam sempre sido o inimigo mor de Israel. Leal às tradições de sua tribo, Haman tentou fazer de tudo a seu alcance para convencer Achashverosh a não autorizar que os judeus reconstruíssem o Templo.

Haman não era o único a pressionar o rei. A Rainha Vashti ia pelo mesmo caminho. Fervendo de ódio, exclamou: "Este Templo foi destruído por meus pais, Nevuchadnêtsar e Belshatsar. Não descansaram até que o viram em ruínas. E você vai permitir aos judeus que o reconstruam!"
Achashverosh não gostava muito dos judeus. As palavras de sua mulher e a carta de Haman convenceram-no. Ordenou que o trabalho no Templo parasse.

Não é de se admirar que os judeus não estivessem contentes com o reinado de Achashverosh. Foram eles que haviam apelidado o rei de "Achashverosh". Seu verdadeiro nome era Artaxerxes, o título dado a muitos governantes persas, assim como o nome ‘Faraó’ era dado aos reis do Egito. Achashverosh é um trocadilho com as palavras "chash" e "rosh", significando "dor de cabeça" (em hebraico). Seu reinado cruel e mudanças de humor causaram dor de cabeça e sofrimento a muitos judeus.

Achashverosh agora oferecia uma festa imensa para celebrar seu recém-adquirido poder do trono. Haman convencera-o a fazer da festa algo inesquecível.

"Embora o tempo para a redenção de Israel tenha passado" – Haman disse maliciosamente ao rei – "na verdade não há nenhuma garantia que a promessa de seu D’us esteja definitivamente quebrada. Não é seu D’us que está impedindo a redenção, mas os próprios judeus."
Achashverosh fitou Haman, intrigado. O que queria dizer?

"Veja, Majestade, a história dos judeus não tem segredos. Todos sabem que enquanto eles obedecerem aos mandamentos de D’us, viverão bem. Entretanto, quando não obedecem Suas leis, são subjugados por outras nações e governantes" – explicou Haman.

O rei estava começando a entender. Se os judeus se arrependessem, seriam redimidos. Entretanto, se pudessem ser levados a pecar novamente, nunca ficariam livres do exílio.
"Ah, compreendo" – disse o rei, entusiasticamente. "Pretendo forçá-los a participar da minha festa, a beber meus vinhos e comer de minha comida."

Haman esfregou as mãos, contente. Era uma ocasião perfeita para fazer uma armadilha para os judeus e condená-los para sempre ao exílio.

Assim, Achashverosh planejou a festa. Desejava aproveitar esta oportunidade para exibir sua grande riqueza e impressionar os súditos com seu poder. Convidou governadores de todo seu império para que viessem com suas esposas, filhos e criadagem. Também convidou todos os oficiais de seus vastos exércitos. Precisava deles para conquistar e controlar as províncias; por isso, queria assegurar-se de seu apoio e lealdade.

Como o império era muito extenso, a festa duraria por 180 dias, de forma a permitir que mesmo os convidados vindos de terras distantes pudessem participar. A festa começou no mês de Nissan (abril) quando os dias se tornam mais longos. Haveria suficiente luz do dia, durante o qual as pessoas poderiam admirar a riqueza do rei. Os longos dias de verão seriam repletos de festividades e celebração. A cada dia da festa, Achashverosh apareceria ostentando as vestimentas do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote), mantidas nos cofres reais com os sagrados utensílios do Templo.

Os tesouros em exibição eram trocados a cada dia da festa, e nada seria exposto mais que uma única vez. O cardápio para cada dia do banquete também seria variado; o mesmo prato nunca seria servido duas vezes. Continuar dessa maneira durante 180 dias exigia recursos infindáveis, os quais Achashverosh estava ansioso para mostrar que possuía.

As pessoas vinham de longe e de perto. Multidões de hóspedes misturavam-se nos domínios luxuosos do palácio, bajulando o rei com os elogios mais extravagantes. Achashverosh estava encantado ao ver que todos pareciam tão assombrosamente impressionados.

Todos, quer dizer, todos exceto os judeus. Quando a notícia do convite feito pelo rei chegou ao povo, os líderes judeus convocaram uma reunião urgente para discutir o assunto.

"Como ousaremos recusar o convite?"


"Se o fizermos, seremos considerados rebeldes e poremos nossa vida em perigo."

"Seria possível irmos, e mesmo assim evitar a comida não-casher?"

Ansiosos e angustiados, os líderes judeus olharam para Mordechai, seu Rabi mais proeminente, em busca de orientação. "Nenhum judeu deve participar!" – proclamou ele, vigorosamente.

Os líderes judeus rapidamente decidiram deixar a cidade de Shushan pelo período de 180 dias de duração da festa.

Quando o rei percebeu sua ausência, ficou furioso e jurou fazê-los participar da sua celebração. Sentiu também que ainda havia algo necessário a se fazer para unir o povo que governava. O banquete de 180 dias seria suficiente para o povo de todo seu império. Entretanto, algo de especial tinha de ser feito para assegurar a lealdade dos súditos locais. Com esses dois propósitos em mente, Achashverosh planejou uma festa especial com duração de sete dias que se seguiria ao banquete prévio, apenas para os cidadãos de sua capital, Shushan.

"Os judeus não conseguirão se safar desta vez" – disse Achashverosh, cerrando os dentes ao decidir forçá-los a comparecer a esta segunda série de festejos. Usando a ameaça de penalidades, forçou os judeus a retornarem a Shushan e assistirem a este segundo banquete de sete dias, começando em 3 de Tishrei e terminando em Yom Kipur.


Embora Mordechai houvesse ordenado que os judeus não deviam comer na festa, acharam difícil de recusar. Como pode uma pessoa sentar-se à mesa de um rei e não comer?

Tornou-se claro que o plano de Haman estava funcionando e que os judeus haviam de fato se esquecido da promessa de D’us.

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Capítulo II

A rainha Vashti olhou para os folguedos e franziu a testa. Ela não gostava de ser superada."Deverei eu, a filha de um rei, ser ofuscada por um plebeu? Como ousa ele competir com a verdadeira realeza? Farei uma festa especial para as mulheres, que será em cada detalhe tão extravagante como a do rei."

Vashti chamou as criadas e instruiu-as a se prepararem para seu banquete. Intencionalmente, procurou moças judias e fê-las trabalhar no Shabat. Ela sempre gostara de forçar os judeus a profanar seu sagrado dia de descanso.

A festa de Vashti foi preparada, e o palácio, transformado numa imensa e resplandecente exibição de extravagância. O sétimo dia do banquete de Shushan era também Shabat. O rei não havia comido ou bebido muito até este último dia porque estava se concentrando em exibir seu poderio. Como bom anfitrião, apenas beliscava, passando a maior parte do tempo com os convidados. No sétimo dia, porém, após ter providenciado todas as necessidades de seus hóspedes e haver ostentado toda sua riqueza, juntou-se aos folgazões.

Todos os cortesãos estavam se gabando sobre a beleza de suas mulheres. Uma discussão amigável irrompeu, sobre se as mulheres persas ou se as medeanas eram as mais belas.

A essa altura, Achashverosh, que estava bastante bêbado, interrompeu a conversa com um rugido. "Minha mulher não é persa nem medeana; é da Babilônia, mas nenhuma é tão bela quanto ela. Se não me acreditam, vou mostrá-la a vocês."

"Certamente" – zombaram os cortesãos – "vista a mais feia das mulheres como uma rainha e parecerá linda. Isso não prova nada."

"Isso é o que vocês pensam" – retorquiu o rei. "Mostrarei a vocês que ela é linda mesmo sem roupa." Com isso, voltou-se aos ministros e disse: "Tragam-me a rainha Vashti – vestindo nada além da coroa real."
Numerosas pessoas perceberam que o rei estava embriagado, mas tiveram medo de desobedecê-lo. Ele mandou empregados comuns para chamar Vashti, em vez de oficiais importantes. Parecia quase que a intenção era prendê-la como um criminoso qualquer. Porém, apesar do insulto implícito, ninguém ousou desafiar as ordens do rei.

Ninguém, exceto a própria rainha. Quando ouviu o pedido ultrajante do rei, ficou estupefata. "Que tipo de palhaçada era esta? E se ele a exibisse defronte aos cortesãos e todos zombassem dela? Jamais seria capaz de mostrar seu rosto novamente!

"O rei gosta apenas de minha beleza, não de mim" – pensou Vashti. "Por que devo degradar-me por ele? Quem pensa que é? Sou muito superior a ele, sendo de linhagem real. Como ousa me ridicularizar assim?"

Desgostosa, Vashti enviou sua recusa nos termos mais enfáticos através dos criados. "Vão e digam ao palerma de seu amo que na casa de meu pai, Belshatsar, ele não seria suficientemente bom nem para limpar os estábulos! Seus tolos débeis-mentais! Não percebem que sou a rainha Vashti, filha dos reis da Babilônia? Se tivessem conhecido meu pai, perceberiam que Achashverosh é um joão-ninguém. Meu pai poderia beber dez vezes mais que este amo de vocês, mas jamais teria dado uma ordem tão ultrajante!"

Ao ouvir esta resposta, Achashverosh mandou um ministro do mais alto escalão com mensagem igualmente forte para Vashti: "Olhe bem o que está fazendo! Obedeça minhas ordens e apresente-se perante meus convidados ou ficará amargamente arrependida!"

A mensagem foi transmitida, mas a rainha a ignorou. "Volte para seu rei bêbado" – replicou – "e diga-lhe que suas idéias são absurdas. Sou a filha do grande rei Belshatsar, neta do famoso Nevuchadnêtsar, conquistador do mundo. Não serei humilhada dessa forma!

"Aquele tolo não percebe que está apenas prejudicando a si mesmo? Vai transformar-nos em motivo de pilhéria em Shushan. Nem mesmo um idiota forçaria sua mulher a desnudar-se em público."

A rainha Vashti estava na verdade mais preocupada com seu orgulho que com seu recato. Mesmo assim, sentiu uma real ameaça no aviso do rei.

"Se o rei insiste em que eu apareça perante as pessoas, quero cobrir meu corpo ao menos com um véu" – mandou dizer pelos cortesãos.

O rei não concordou.

"Irei sem o véu, mas não me envergonhe fazendo-me usar a coroa."

Novamente o soberano recusou. Ele não queria que seus convidados pensassem que substituíra a rainha por uma escrava.

Finalmente, Vashti rendeu-se. Embora o rei estivesse se comportando de forma irracional, relutantemente concordou em aparecer sem roupa. Preparando-se para comparecer ao banquete real, deu uma rápida olhada no espelho.

O que viu quase fê-la desmaiar. Uma horrível erupção havia brotado em todo seu corpo. O que poderia fazer? Não seria possível aparecer como o rei havia ordenado. Procurando desesperadamente por uma desculpa, finalmente escreveu uma mensagem e a mandou ao rei.

A nota dizia: "Não posso acreditar que você tenha mesmo dado essa ordem. Estou certa que o mensageiro deve ter interpretado mal suas palavras. Como não ouvi a ordem de seus lábios, não irei."

Lendo o recado, o rei explodiu em fúria. Ela estava zombando dele na presença dos cortesãos. Se sua própria mulher se recusava a obedecer às suas ordens, como poderia governar um reino?

Achashverosh tentou reprimir a ira, mas essa irrompeu fora de controle, como uma onda de fogo. Assim mesmo, fez um esforço enorme para acalmar-se, porque na verdade não queria que nada de drástico acontecesse a Vashti. Afinal, era sua esposa e rainha.

O rei estava terrivelmente aborrecido. Como pudera fazer algo tão tolo? Por causa de sua embria-guez, sua amada rainha Vashti estava agora em grande perigo.

Achashverosh fora subitamente mergulhado num dilema que ele mesmo criara. Não podia simplesmente ignorar o episódio por completo e continuar sua diversão. Mesmo assim, não desejava ir em frente com sua ameaça. Precisava discutir o assunto com seus conselheiros e esperava que inventassem algum plano inteligente para salvar tanto seu orgulho como sua rainha.

O rei Achashverosh pediu conselho a sete príncipes da Pérsia e Medéa que lhe eram mais chegados. Estes homens representavam as várias partes do reino. Carshená, encarregado dos estábulos reais e do gado, viera da África. Shêter, da Índia, tomava conta das adegas reais. Admatá, da Europa Ocidental, dirigia toda a criadagem. Tarshish, do Egito, cuidava dos membros da família real. Mêres, Marsená e Memuchan eram de Jerusalém. Por serem conhecidos como conselheiros profissionais, foram colocados para chefiar os outros.
O rei pediu aos sete ministros para aconselhá-lo sobre um castigo para uma rainha que desobedeça ao rei.
Não queria de forma alguma que sugerissem uma sentença de morte. Apesar disso, Vashti havia sido extremamente desrespeitosa, por isso não poderia perdoá-la ele mesmo, abertamente. Fazê-lo implicaria confessar que era um rei incapaz de defender sua própria honra. Mas se seus melhores conselheiros sugerissem que a perdoasse, Achashverosh salvaria seu orgulho aceitando o perdão, desde que sugerido por eles.

O rei escolheu as palavras cuidadosamente, insinuando aos conselheiros que gostaria de um julgamento favorável à rainha.

"O que deve ser feito com a rainha Vashti, que desobedeceu às ordens do rei, trazidas a ela por meus mensageiros?" – perguntou o soberano.

Achashverosh estava na verdade dizendo: "Julguem-na como uma rainha, não como uma plebéia. Lembrem-se de que fiz um exigência imprópria e não dei a ordem pessoalmente, mas mandei-a por mensageiros.
Além disso, todos sabem que eu tinha bebido. Deve receber algum castigo, mas não a morte. Tenham consideração, pois a vida de minha rainha está em suas mãos." Achashverosh olhou esperançosamente para os ministros. Eles se mexiam constrangidamente em seus lugares. Embora o rei estivesse obviamente pedindo suas opiniões, não estavam bem certos sobre como reagir.

"Devemos condená-la e colocar o orgulho do rei num pedestal, como ele sempre quis?" – refletiam. "Ou deveremos sugerir o perdão e o esquecimento, ao mesmo tempo em que possivelmente provocaremos a ira do rei?"

Os ministros não haviam entendido as insinuações do rei, e temiam dar voz às suas opiniões.

Todos menos um. Era Memuchan, também conhecido como Haman. Provavelmente entendia as intenções do rei, mas tinha seus próprios interesses em mente. Guardava um ressentimento pessoal contra Vashti, que fizera de tudo para humilhá-lo. Quando Vashti convidara todas as senhoras de Shushan para sua festa, havia negligenciado a esposa de Haman.

"Que oportunidade perfeita para vingar-me dela" – pensou Haman com satisfação. "Com Vashti fora do caminho, minha linda filha tornar-se-á a candidata mais provável a rainha."

Havia ainda algo mais incomodando Haman, e causando-lhe grande ansiedade e ódio com relação a Vashti. Os astrólogos reais haviam lhe dito que a esposa do rei o mataria no futuro. Achando que suas predições referiam-se a Vashti, Haman estava muito ansioso para se ver livre dela.

Dessa maneira, foi Memuchan, aliás Haman, que descaradamente, destacou-se da fileira de ministros silentes, expondo sua opinião em primeiro lugar.

"Devo aconselhar o rei a não julgar Vashti apenas em relação a si mesmo" – começou. "Ela ofendeu não apenas ao rei, mas a cada homem em todo o reino. Não há maneira de escapar à responsabilidade.
"Sabem como as histórias são deturpadas conforme são passadas adiante. O povo não conhecerá todos os detalhes. As mulheres ouvirão que a rainha foi perdoada após desrespeitar o rei, e tentarão imitá-la. O status dos homens no reino será rebaixado, e ficarão furiosos. Se o rei não punir Vashti por desrespeito, o que poderão os plebeus fazer com suas próprias esposas?"

Memuchan fez uma pausa e olhou à sua volta. Os ministros pareciam aliviados, gratos a ele por haver falado. Até mesmo o rei estava escutando. Na verdade, não parecia estar gostando, mas estava atento. Memuchan continuou cautelosamente.

"Pode ser possível justificar as ações de Vashti" – disse ele – "mas deve ser condenada à morte devido à maneira pela qual humilhou o rei. Se for poupada, o mundo não saberá de suas desculpas e justificativas. O povo saberá apenas que Vashti mostrou extremo desrespeito pelo rei e foi perdoada."

Em seguida, Memuchan apelou para a vaidade do rei. "Vashti é uma mulher teimosa, cheia de orgulho, e jamais reconhecerá que Sua Majestade é seu amo. Se não foi capaz de mudá-la após todo esse tempo, nunca o fará, não importa quanto possa puni-la.

"Se deixá-la viver, Majestade, nunca será respeitado no reino. Acabou de dispender todo este dinheiro num banquete para ganhar o respeito universal; um ato de Vashti poderá desfazer isso tudo."

O humor do rei havia claramente mudado. Memuchan tivera sucesso em reacender sua fúria.

Memuchan notou com grande prazer que o rei inclinava a cabeça em concordância. Percebeu, porém, que deveria agir rápido no caso do instável rei Achashverosh mudar de idéia novamente. "Majestade" – continuou – "como Vashti cometeu tamanha ofensa ao rei e ao império, deve agir antes que a notícia se espalhe. Deve assinar imediatamente uma ordem sentenciando Vashti à morte.

"Deve também proclamar que uma esposa precisa obedecer o marido, não importa o que lhe ordene. Esta proclamação deve ser inscrita nas leis da Pérsia e da Medéa. Se marido e mulher são de nacionalidades diferentes, todos da casa devem falar o idioma do marido. Uma esposa não deveria de forma alguma contrariar os desejos do marido.

"Tudo isso deve ser expresso nos termos mais enfáticos possíveis num decreto real, e enviado a todos os cantos do reino. Porém, a lei será inútil se Vashti não for morta. Deixe que sua punição sirva de exemplo a todas as mulheres do reino."

O rei concordou furiosamente. Todos os ministros soltaram um suspiro de alívio, e parecia que o assunto estava concluído.

Entretanto, Haman tinha ainda uma preocupação. "Suponha" – pensou medrosamente – "que Vashti vai até o rei e o convence a perdoá-la." Isso não poderia acontecer, pois ele, Haman, teria conseguido uma inimiga poderosa para toda a vida. Vashti certamente procuraria vingança sobre ele por havê-la denunciado.

O tortuoso Haman achou uma jeito de evitar esse perigo também. "É também importante, Majestade" – disse firmemente – "decretar que ninguém possa vir à presença do rei sem sua permissão. Caso contrário, Vashti pode aproximar-se do rei e implorar por sua vida. Se tiver clemência, Sua Majestade destruirá o reino inteiro."

Haman persuadiu o rei a jurar pelas leis da Pérsia e Medéa que Vashti nunca mais seria admitida em sua presença. Mesmo um rei não ousaria violar tal juramento e, dessa forma, Haman assegurou-se que a sentença de morte seria levada a termo.

"Também aconselho o rei a expedir uma explicação oficial sobre a execução de Vashti, declarando: ‘Esta mulher era uma rainha e uma filha da realeza, mas está sendo publicamente executada por desobedecer ao rei. Que esta seja uma lição para todos.’

"Não se preocupe, Majestade, não apenas seu reino será beneficiado, mas sua pessoa também, quando se casar novamente. Se o rei mandou matar sua primeira mulher por desobediência, a segunda esposa será muito cuidadosa para não faltar-lhe ao respeito de maneira alguma.

"Se tudo isso for feito, todas as mulheres do reino respeitarão seus maridos, tanto os poderosos como os humildes. Mesmo o homem mais simples será como um rei em sua própria casa. E até a senhora mais poderosa dará ouvidos ao marido."

Murmúrios de concordância e aprovação encheram a sala da corte, para grande prazer de Memuchan.

"Bravo!"

"Brilhante discurso!"

"Magnificamente exposto!"

Mais que qualquer outra coisa, os ministros ficaram satisfeitos pelo fato de que Memuchan tomaria a culpa se mais tarde a condenação da rainha provocasse a ira do rei.

Logo em seguida, Vashti foi executada. Pergaminhos foram enviados a todos os países do reino, selados com o anel de sinete do rei. Cada pergaminho fora escrito no idioma e alfabeto do país ao qual se destinava. Cada qual continha uma proclamação real de que todo homem deveria ser senhor de sua casa, e que a esposa deveria falar o idioma do marido, em sinal de respeito a ele.

De acordo com a lei ora expedida, se uma mulher não se comportasse respeitosamente para com o marido, este seria forçado a denunciá-la, e a sentença seria a morte. "Que decreto ridículo" – zombou o povo quando soube. "Mesmo que minha mulher me desobedeça, jamais a denunciaria" – protestou alguém na multidão.

"O rei está contratando detetives particulares?" – alguém mais escarneceu.

As pessoas deram de ombros e foram cuidar de suas vidas. Ao contrário do plano de Haman, o decreto não foi obedecido, e isso diminuiu a importância de uma proclamação real aos olhos do povo. Isso provou ser muito benéfico para os judeus.

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Capítulo III

Pouco tempo depois, a ira do rei esfriou. Contemplando o retrato de Vashti nos aposentos reais, começou a se perguntar o que teria acontecido a ela. Estava tão bêbado durante o banquete que nem ao menos se lembrava do que havia feito.

"Tragam-me Vashti" – disse o rei.

Trêmulos, os criados pessoais gaguejaram: "Não podemos. Está morta. Sua Majestade mandou executá-la."
"Executada? Por que motivo? O que poderia ter feito que merecesse a execução?"

"Sua Majestade ordenou-lhe que viesse, e ela recusou. Foi pelo conselho de seus ministros que a condenou à morte. Foi sua própria ordem."

O rei estava muito confuso. "Lembro-me disso vagamente. Mas apenas disse que não deveria mais apresentar-se na minha frente. Não poderia ter ordenado que fosse morta."

"Perdoe-nos, Majestade, mas nós mesmos ouvimos isso. Sua Majestade ordenou sua morte claramente."
Devagar, os fatos do banquete voltaram à mente do rei e ele se encheu de arrependimento. Sua mulher havia se comportado com modéstia ao recusar seu pedido irracional e pagara com a vida. Achashverosh foi assolado pelo remorso.

Convocando os sete conselheiros, disse o rei: "Não estou zangado com Vashti, mas com vocês. Se a condenei à morte enquanto estava bêbado, por que foram tão rápidos para cumprir a sentença? Não poderiam ter esperado até que estivesse sóbrio?"

Foram expedidas ordens sumárias de que os conselheiros fossem mandados para longe do reino. O único poupado foi Memuchan, aliás Haman. Punição imediata seria muito suave. O rei pensou sobre um plano de vingança a longo prazo. Primeiro, promovê-lo-ia ao alto comando. Então, quando se sentisse seguro, seria forçado a encarar a força total da fúria do rei.

Livrar-se dos conselheiros mais chegados, entretanto, não trouxe consolo ao rei. Estava muito infeliz e deprimido. Com preocupação, seus servos o viam mergulhar mais e mais na tristeza.

"E se o rei morrer?" – pensaram. "Seu sucessor muito provavelmente nos substituirá e, então, o que faremos?" A criadagem discutiu o assunto por um tempo e então foram ao rei com uma idéia brilhante.
"Majestade, podemos humildemente sugerir que se case novamente? Garantimos que sua futura noiva será a mais bela jovem de todo o reino!"

O rei levantou o olhar, interessado. Os servos continuaram: "Por decreto real, proclame um concurso nacional de beleza a ser promovido aqui em Shushan. Planejamos tudo cuidadosamente. É óbvio que nem toda moça bonita do reino poderá vir até Shushan. Por isso, oficiais serão enviados a cada uma das 127 províncias para escolher a mais bela jovem de cada localidade. Serão julgadas pela aparência e personalidade. A donzela mais bonita de cada estado será trazida a Shushan, e o rei poderá escolher a de sua preferência.

"As moças serão colocadas sob os cuidados de Hagai, o chefe do harém real, e ele se encarregará de todos os assuntos de cosméticos. A jovem que mais agradar ao rei tornar-se-á rainha no lugar de Vashti."

O plano agradou ao rei. Sem dúvida, o conselho dos criados chegara numa hora propícia. Após o terrível parecer dado pelos conselheiros chefes, Achashverosh se tornara completamente enojado com os anciãos do palácio. "Quanto mais envelhecem, mais debilóides se tornam. Faço melhor aceitando o conselho destes jovens" – pensou. "São espertos e criativos e parecem dedicados aos meus interesses – não como aqueles sete velhos abutres que mal podiam esperar para matar Vashti."


E assim, o rei colocou o plano dos criados em ação. A princípio, enviou agentes de um extremo a outro do reino, disfarçando sua verdadeira missão. Aparentemente, estavam apenas cuidando dos negócios costumeiros do reino. O objetivo principal, entretanto, era ficar de olhos bem abertos para qualquer jovem de excepcional beleza, registrando o nome e endereço de cada uma. Como ninguém estava informado sobre o verdadeiro objetivo da missão, nenhuma moça escaparia à busca.

Em seguida, o rei enviou um segundo grupo de oficiais para julgar as jovens, e mandar as candidatas mais condizentes a Shushan. De posse da lista fornecida pelos primeiros emissários, não deixariam nenhuma garota escapar da rede.

Haman, claro, sabia o que estava acontecendo, e lavrou um tento ao empurrar sua filha para a frente do oficial do rei. "É exatamente o que eu estava esperando" – pensou, jubiloso, esfregando as mãos. "Minha adorável filha certamente tem o porte de uma rainha, e quero me assegurar que seja escolhida." Quase podia ver a coroa real colocada sobre a cabeça da moça. Enquanto lá estava fazendo castelos no ar, mal percebeu a súbita agitação ao redor de sua filha. Com um susto, Haman foi trazido de volta à realidade bem a tempo de presenciar, horrorizado, a filha dominada por um violento ataque de vômito. Subitamente ficara doente e sujava-se em público.
Desnecessário dizer, o mensageiro real rejeitou-a imediatamente.

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Capítulo IV

Rumores da competição que se aproximava espalharam-se como fogo. Muitas pessoas acharam engraçado. Algumas sorriam com desdém, mas a maior parte antecipava ansiosamente o que parecia ser diversão garantida. Apesar da jocosidade que ia pelos ares, havia pelo menos uma pessoa que estava temerosa e preocupada pelo desenrolar dos acontecimentos. Era Mordechai, o Judeu, filho de Ya’ir, filho de Shim’i, por sua vez filho de Kish, da tribo de Binyamin. Ele estivera entre os judeus cativos de Jerusalém, exilados para a Babilônia com o rei Yechonyá por Nevuchadnêtsar. Quando a cidade foi tomada pelos persas, o Sinédrio (San’hedrin), que incluía Mordechai, o renomado sábio, e outros líderes da comunidade judaica, mudara-se para Shushan, a nova capital do império.

Mordechai era reconhecido como um devoto cumpridor de Torá, muito franco e sincero. Havia sido o único a santificar publicamente o nome de D’us quando o rei Achashverosh convidara os judeus para a festa. Os outros sábios recusaram-se a participar e se esconderam, mas Mordechai desobedeceu abertamente a ordem do rei, recusando-se a comer ou beber no banquete real. Demonstrara ter orgulho de seu judaísmo e deu um exemplo para seu povo.

Agora, estava inquieto pelos boatos na cidade, e com razão. Tinha uma prima jovem e bonita, a quem havia criado desde tenra infância, após a morte dos pais. Era Hadassa, uma jovem delicada e adorável, conhecida pelo recato e caráter excepcional.

Quando nasceu, todos comentaram: "Que lindo bebê! Sua pele de um oliva profundo é como a cor da murta, de tão fina e delicada." Sua mãe entreouvira os elogios e decidira. "Então, este será seu nome, Hadassa, a palavra hebraica para murta." Orou para que a filha tivesse uma personalidade tão agradável como a suave fragrância da murta.

Hadassa fez realmente jus a seu nome. Muitas árvores perdem as folhas durante o inverno. A murta, entretanto, é sempre verde, mantendo as folhas durante o ano todo. Como a murta, Hadassa era o tipo de menina que permaneceria virtuosa e merecedora de louvor onde quer que se encontrasse.

Por isso, Mordechai estava inquieto com os rumores vindos do palácio. Conhecedor da beleza ímpar e caráter excepcional de Hadassa, temia que fosse uma candidata perfeita à coroa real. Porém, se fosse desígnio de D’us, como ousaria interferir?

Mesmo assim, Mordechai decidiu que seria de bom alvitre esconder temporariamente a identidade judaica de sua prima. Hadassa é obviamente um nome judeu, por isso Mordechai decidiu mudá-lo.

"Precisamos esconder seu verdadeiro nome" – disse gentilmente à jovem prima. "De agora em diante será chamada de Ester, que significa ‘oculta’." Hadassa, agora Ester, assentiu com a cabeça. Confiava sem restrições em seu santo primo e aceitou a decisão de boa vontade.

Como se provou mais tarde, os temores de Mordechai eram justificados. Quando espalhou-se a notícia que o rei estava procurando uma nova rainha, os persas atiravam as filhas para os administradores do rei. Mordechai fez exatamente o oposto. Escondeu Ester da melhor maneira que pôde.

Ester sempre fora recatada, raramente aparecendo em público. Mesmo assim, muitas das mulheres persas haviam-na avistado, e sua beleza era famosa. Os oficiais do rei logo ouviram que havia uma jovem de extraordinária beleza em Shushan, embora não soubessem sua nacionalidade. Procuraram em vão pela "jovem misteriosa" entre as numerosas moças que se apresentaram.

"Por que procurarmos através deste vasto reino?" – perguntaram-se frustrados. "Pelo que temos ouvido, há uma jovem em Shushan mais bela que qualquer uma dessas donzelas."

Quando não puderam encontrar Ester, falaram ao rei sobre ela. Achashverosh imediatamente fez dois decretos. Qualquer moça que se escondesse dos agentes seria condenada à morte, e qualquer jovem que agrade ao rei tornar-se-á rainha do Império Persa.

Choviam garotas em Shushan, vindas de todas as partes do reino. Ester, claro, mantinha-se escondida, esperando não ser descoberta. Se tivesse de ser encontrada, ao menos todos saberiam que havia sido levada contra sua vontade.

Mordechai tornou-se muito ansioso por causa da lei impondo a pena de morte para quem se escondesse dos agentes do rei. Percebeu que não poderia esconder Ester para sempre. No fundo, Mordechai tinha um pressentimento que algo de grandioso aconteceria se Ester desposasse o rei. Além disso, se D’us assim o havia decretado, nada podia ser feito para evitá-lo. Por isso, Mordechai instruiu Ester a deixar seu esconderijo. Deveria misturar-se com as outras jovens e, assim, ninguém saberia sua nacionalidade. Com uma prece no coração, Mordechai mandou-a sair, decidindo deixar tudo nas mãos de D’us.

Assim que os agentes avistaram Ester, perceberam que era a jovem pela qual haviam procurado. Imediatamente, foi trazida ao palácio. Os emissários estavam tão confiantes que Ester seria a escolhida, que não planejaram separá-la como estavam fazendo com as outras garotas.

Quando foi apresentada a Hagai, encarregado do harém, ele gostou muito. Enquanto todas as outras jovens pareciam-se entre si, a beleza e personalidade de Ester destacavam-se de longe.

"Parece uma candidata promissora" – devaneou Hagai. "Embora seja uma grande honra ser alojada em qualquer parte do palácio, pretendo acomodá-la no próprio harém. Lá, o contraste entre sua beleza e a das outras moças saltará aos olhos, e o rei certamente será informado a respeito."

Ester foi levada ao harém e muito bem tratada. Hagai mimou-a com cosméticos e presentes, favorecendo-a acima de todas. Ao contrário das outras jovens que estavam sempre pedindo produtos de beleza e quinquilharias, Ester estava muito mais preocupada com seu judaísmo que com sua beleza.

"Como conseguirei manter-me casher aqui?" – pensou ansiosamente.

Percebendo a atenção especial que recebia de Hagai, decidiu aproveitá-la. "Não parece ser um mau sujeito. Vou dizer-lhe que sou vegetariana e que como somente comida natural, crua. Espero que não crie caso por isso."

Felizmente para Ester, Hagai concordou em aceder a cada desejo seu sem muitas perguntas. Outro favor que Hagai concedeu a Ester foi que ela escolhesse pessoalmente sete garotas do palácio real, que fossem convenientes para servi-la. Ela selecionou moças virtuosas e de bom caráter.

Secretamente, Ester ficou muito agradecida por sua boa sorte. "Que maneira perfeita de manter o Shabat despercebido. Farei com que cada moça me sirva apenas um dia por semana. Não me verão nos outros dias, e ninguém saberá que não trabalho no Shabat."

Com efeito, a "criada do Shabat" nunca se deu conta que suas obrigações eram diferentes do resto das moças. Presumiu que sua ama evitava trabalhar durante toda a semana. "Como é mimada esta senhora!" – pensou a serva. "Age como se já fosse rainha, jamais fazendo qualquer tipo de trabalho."

Embora Ester estivesse com outras jovens que percebiam seus modos diferentes e que ela não se alimentava das mesmas comidas, não sabiam o suficiente sobre judaísmo para entender as razões de seus atos.
Cochichavam entre si invejosamente: "Age como se fosse nobre. Seus modos e comportamento são provavelmente parte de seu jogo, tentando de toda forma parecer especial e superior, esperando ser escolhida como rainha."
Começaram a se perguntar. "De onde veio ela? Não contou a ninguém sobre seus pais ou em que país nasceu."
O que aquelas garotas infantis e atarantadas não sabiam era que Mordechai havia instruído Ester para esconder o fato de que era judia. Sentindo que havia uma razão importante para que Ester fosse trazida ao palácio de Achashverosh, percebeu que, se o rei viesse a saber que Ester era judia, jamais a faria sua rainha.

Mordechai também não queria que ninguém soubesse que Ester era aparentada com ele. "Se as pessoas descobrirem que somos primos" – disse a Ester – "serão cautelosos com o que dizem em sua presença. Talvez sua posição no palácio seja útil a nosso povo, permitindo que obtenhamos informação internas de forma relativamente fácil; assim saberemos o que nossos inimigos tramam contra nós."

Mordechai sabia que havia sobrecarregado Ester com uma tarefa muito difícil. Por isso, mantinha vigilância cerrada sobre o que estava acontecendo no palácio. É claro que não fazia perguntas sobre Ester abertamente. Apenas passeava todos os dias perto do pátio do harém, mantendo olhos e ouvidos bem abertos.

O harém real era uma colméia em atividade. As jovens recebiam um tratamento de beleza que durava um ano, com óleos delicados, perfumes raros e os mais finos cosméticos. Cada garota exigia atenção constante das atendentes, solicitando uma lista infindável de produtos de beleza para melhorar a aparência, esperando ser escolhida como rainha.

Após muitos meses no harém, as moças finalmente foram escaladas para serem apresentadas ao rei. Cada uma seria oficialmente requisitada a passar uma noite nos aposentos do rei. Qualquer coisa que desejasse do harém lhe seria concedida.

Pela manhã, retornaria a um segundo harém, ficando aos cuidados de Shaashgaz, um ministro real.

"Registre o nome da moça no caderno" – Shaashgaz ordenava a seus assistentes.

A primeira garota a ser levada de volta ao segundo harém olhou sobre os ombros do atendente que anotava seu nome. Foi tomada de surpresa.

"Mas este não é meu nome!" – protestou furiosamente.

Shaashgaz explicou: "Muitas jovens vêm de outros países, e nomes estrangeiros não podem ser usados no palácio. Então cada uma recebe um nome especial para o palácio, pelo qual possa ser chamada, se o rei resolver vê-la novamente."

Não revelou, porém, a verdadeira razão para dotar as moças de nomes diferentes neste harém. Isso impediria que a jovem oferecesse suborno para conseguir voltar ao rei uma segunda vez, na esperança de passar por alguém que ainda não houvesse sido chamada. Esses cuidadosos arranjos tinham de ser feitos, pois as candidatas dispunham-se a qualquer estratagema para conseguir o trono de Vashti.

Todas, exceto Ester. Ela estava tudo menos ansiosa para tornar-se rainha. Quando chegou sua vez, recusou os lindos vestidos de festa que lhe ofereceram, bem como os cosméticos e perfumes caros que recebeu.
Hagai ficou horrorizado ao ver sua atitude. "Se Ester apresentar-se ao rei sem jóias, ficará furioso e eu serei responsabilizado" – pensou.

Implorou a Ester para usar qualquer coisa que desejasse, assim Achashverosh não ficaria furioso. Mesmo assim, nada solicitou, pegando apenas o que Hagai insistiu para que aceitasse.

Apesar disso, Ester era atraente para quem quer que a visse. Sua personalidade excepcional se destacava, não importando o que vestisse. Como ninguém conhecia sua nacionalidade, as pessoas sentiam-se orgulhosas em reivindicá-la como sendo sua compatriota. Todos a elogiavam e admiravam.

O próprio rei sentiu-se atraído por Ester assim que foi trazida ao palácio, mas não se apressou. Muito tempo passaria antes que esquecesse a lição de Vashti. Antes de tomar uma decisão a respeito de Ester, observou-a por muitos meses para ver se escondia quaisquer características indesejáveis.

Entretanto, Ester despertou a afeição e favores do rei mais que qualquer das outras jovens. Ele percebera que sua beleza era mais que aparência. Ficou especialmente impressionado com o fato de que ela nada havia pedido para realçar sua beleza. Sentiu também que Ester era possuidora de uma personalidade altruísta e generosa.
Finalmente, o rei colocou a coroa da rainha sobre a cabeça de Ester. Foi instalada no palácio de Vashti e assentou-se no trono real. Embora sua origem fosse desconhecida, recebeu as mesmas honras que Vashti, filha da linhagem real da Babilônia.
O rei Achashverosh celebrou a coroação de Ester, oferecendo uma grande festa em sua honra. "Esta é a ‘Festa de Ester’ " – declarava feliz. Ele lembrou-se do que havia acontecido durante o último banquete que havia oferecido e estava determinado a não deixar que este fosse arruinado. "Na verdade" – pensou o rei com um meio-sorriso – "se não fosse por aquela primeira festa, jamais estaria celebrando esta."
Pensou sobre o desenrolar dos acontecimentos que haviam culminado com a coroação de Ester. "Meus súditos têm sido leais e tolerantes com minhas despesas" – pensou. "As províncias gastaram muito para mandar as jovens para o concurso. Muitas pessoas ajudaram na minha busca por uma rainha. Devo mostrar-lhes minha gratidão."

O rei anunciou uma isenção de impostos e distribuiu presentes de valor. Achashverosh desejava também convidar os habitantes da cidade de Shushan para uma festa, como havia feito anteriormente. Ester aconselhou-o contra essa idéia. "Há muita gente pobre em Shushan" – disse ela. "Comparecer a um banquete real é uma despesa enorme. Somente com roupas gastarão uma fortuna. A melhor idéia é decretar um feriado e deixar o povo comemorar em casa. Envie presentes às pessoas, assim poderão organizar suas próprias festas."

Impressionado pela sabedoria de Ester, o rei concordou. O banquete real ficou conhecido como "A Festa de Ester", expressando seu carinho pelo povo.

O rei, entretanto, tinha outra razão para promover esta festa. Achashverosh estava ansioso para descobrir a origem de Ester. Ao proclamá-la como a "Festa de Ester", insistiu com ela para que enviasse convites a quem quisesse.

"Certamente convidará seus parentes para que vejam sua recém-adquirida posição" – pensou o rei. "Muito provavelmente convidará seus conterrâneos e lhes dará reconhecimento especial."

Dessa maneira, o rei esperava descobrir a origem de Ester, mas calculara mal. Ester tratou todos os convidados da mesma forma e não mostrou favoritismo a nenhum grupo.Quando pressionada pelo rei a revelar de onde viera, declarou calmamente: "Sou órfã. Meu pai morreu antes que eu nascesse, e minha mãe faleceu quando eu era bebê." Mas Achashverosh não ficou satisfeito com essa resposta. Incapaz de descobrir a identidade de Ester por meios escusos, tentou uma abordagem direta. "Quero que você me diga sua nacionalidade" – disse ele.

Ester solicitou ao rei permissão para falar francamente e respondeu. "Por favor, não se zangue pelas minhas palavras, mas Sua Majestade me surpreende. Está sendo teimoso, da mesma forma que fez quando matou Vashti. Agora está me pressionando. E se por acaso digo a coisa errada? Irá matar-me, também? A primeira vez que perguntou sobre meus pais, eu disse a verdade. Sou órfã e nunca os conheci. Tenho boas razões para não lhe dizer o pouco que sei sobre meu nascimento. Quando chegar a hora, saberá. Por enquanto, saiba que sou de sangue real. Escolheu-me como sua mulher e rainha sem conhecer minhas origens. Se está satisfeito comigo, porque desperdiçar o tempo com curiosidade vã? Se quiser matar-me, nada há que possa fazer. Mas um verdadeiro rei governa com paciência e sabedoria, percebendo que toda a verdade será revelada a seu tempo.

"Sei que seus conselheiros estão muito curiosos a meu respeito e o estão pressionando para esmiuçar meu passado. Lembre-se quanto sofrimento lhe causaram ao sugerir que mandasse executar Vashti. Se der ouvidos a eles agora, arrepender-se-á, como já o fez antes."

Suas palavras causaram uma profunda impressão no rei, que disse: "Compreendo o que disse sobre meus assessores. Mas um rei não pode governar sozinho. Se despedir os conselheiros, a quem deverei admitir?"
Ester sabia que estava correndo um risco, e agiu cuidadosamente. "Ouvi falar de alguns homens sábios" – replicou – "de uma nação conhecida como Israel. São considerados instruídos e confiáveis. Como é de seu conhecimento, tanto Nevuchadnêtsar como Belshatsar, os grandes monarcas da Babilônia, tinham um conselheiro judeu cujo nome era Daniel. Seu próprio predecessor, Ciro, empregava um judeu, Zerubavel, como conselheiro mor. Talvez, se tivesse pessoas assim, o governo funcionasse melhor."

O rei contemplou esta nova rainha pensativamente. Sempre havia tentado ser como os outros reis famosos e governantes poderosos "Se aqueles grandes reis tiveram conselheiros judeus, devo imitá-los. Acha que ainda existem sábios judeus por aí?"

Ester tentou falar tão casualmente quanto possível. "Na verdade" – respondeu – "ouvi falar de um descendente de Shaul, o rei judeu, que vive aqui em Shushan. Chama-se Mordechai, e sua mente é considerada das mais brilhantes do reino."

Achashverosh sabia sobre Mordechai, e decidiu agir conforme a recomendação da rainha. Chamando Mordechai, nomeou-o conselheiro real e juiz no Portão do Rei. Foi designado para o Portão, de forma a ficar disponível para aconselhar o público.

O rei, entretanto, queria se beneficiar da sabedoria desse homem famoso para seus próprios assuntos também. Certo dia, chamou Mordechai e lhe disse: "Vejo como é respeitado por sua inteligência e judicio-sos conselhos. Talvez possa ajudar-me num assunto pessoal. Escolhi recentemente uma donzela excepcio-nal para ser minha rainha, e cheguei a conhecê-la como uma pessoa ímpar. Porém, não tenho informação nenhuma a respeito de suas origens. Eu simplesmente preciso saber sua nacionalidade."

Mordechai sabia que sua posição era delicada. Precisava fingir que não tinha nenhum interesse espe-cial no assunto. Queria também provar seu pressentimento de que a presença de Ester no palácio era parte de uma importante missão recebida de D’us. Talvez o desprazer do rei fosse um sinal de que a estada de Ester no palácio não tivesse que acontecer. Sua própria nomeação levantava suspeitas que ele queria apagar. Então pensou num plano simples mas engenhoso.

"Majestade," – disse – "convoque um novo grupo de jovens a Shushan, como se quisesse escolher outra esposa. Deixe a rainha pensar que está infeliz com ela, por causa dos segredos que esconde. Ficará nervosa e logo desatará a língua."

Este conselho agradou muito ao rei, sendo também aplaudido pelos príncipes e nobres. Estavam invejosos de Ester por causa de sua proximidade com o rei. Por que havia sido escolhida, e não uma de suas filhas? Haman estava particularmente aborrecido. Havia planejado tão cuidadosamente livrar-se de Vashti e substituí-la por sua própria filha, mas Ester havia interferido.

As palavras de Mordechai também dissiparam as suspeitas sobre seu possível relacionamento com Ester. Se Ester fosse judia, concluíram, Mordechai jamais teria aconselhado o rei a trazer possíveis rivais ao palácio. Uma boa garota persa poderia facilmente tomar o lugar de Ester, e Mordechai seria também prontamente substituído.

No desenrolar dos acontecimentos, o plano de Mordechai funcionou. Tivesse o rei escolhido outra esposa, ele e Ester teriam tido um aviso de que a posição de Ester no palácio não era desígnio de D’us. Mas na verdade, o rei não se cansara de Ester, e não a rejeitou por recusar-se a contar seu segredo.

Era óbvio agora que Ester fora designada por D’us para desempenhar um importante papel. A curiosidade do rei aquietou-se e os nobres ficaram satisfeitos, enquanto Ester e Mordechai secretamente anteciparam o futuro.

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Capítulo V

Embora a vida no palácio parecesse agora ter voltado ao normal, sob essa calmaria problemas já fermentavam. Dois dos guardas do rei, Bigtan e Têresh, tornaram-se hostis a Achashverosh, e planejaram assassiná-lo.

"Olhe o que o rei Achashverosh nos fez" – Bigtan sibilou ao colega. "Desde que este sujeito, Mordechai, foi indicado para conselheiro real, temos sido rebaixados. Sabe o que este judeu Mordechai tem feito? Julga os casos de acordo com a lei judaica, sempre que é consultado por judeus. Que desgraça! Como se nossas leis não fossem boas o suficiente."

"Pois é" – disse Têresh, rilhando os dentes – "Mordechai apoderou-se de nossos empregos e agora é o encarregado da guarda pessoal do rei. Fomos estacionados aqui para supervisionar os aposentos do rei. Que trabalho miserável, ficar em pé o dia todo. Haman tem sido fiel a nós e tentou argumentar em nossa defesa, mas em vão."

"Nossa má sorte é por culpa da rainha" – continuou Têresh. Foi ela quem aconselhou o rei a nomear Mordechai."

Bigtan olhou intencionalmente para o amigo.

"Sabe, esse trio petulante está me dando nos nervos. Digo a você, devemos agir rápido e dar um fim neles."
Bigtan e Têresh tinham uma queixa adicional contra o rei. Eram parentes de Vashti e haviam emigrado da Babilônia para Shushan quando fora aprisionada.

"Creio que chegou a hora de vingar a morte de Vashti" – sussurrou Têresh. Os dois traidores tinham tudo planejado. Iriam assassinar o rei, declarando que o haviam feito por ordens de Mordechai. Como este fosse seu superior, não tiveram outra escolha a não ser obedecer. Mordechai então teria um fim bem triste.

Bigtan e Têresh tinham esperança de conseguir outra vantagem ao matar Achashverosh. Acabara de irromper uma guerra entre Pérsia e Grécia. O campo de batalha era distante, mas Bigtan e Têresh tinham certeza de que, caso pudessem entregar a cabeça de Achashverosh aos gregos, seriam recompensados com fama e posições de destaque.

Enquanto discutiam os detalhes de sua trama, Bigtan e Têresh mal perceberam que Mordechai estava ouvindo a conversa. Quando notaram sua presença, Bigtan rapidamente fez sinal a Têresh para calar-se, mas este desprezou seu aviso.

"Ele não pode entender uma palavra do que falamos" – riu. "Acha mesmo que Mordechai pode falar tarso, nossa língua nativa?"

Os dois continuaram a tramar, descuidadamente supondo que Mordechai não tinha a mínima idéia do que falavam. Estavam errados. Como um dos requisitos para servir ao San’hedrin, Mordechai precisava saber os setenta idiomas do mundo civilizado. Era tão bem versado neles que o povo o chamava de "Balshan", i.e., o "Poliglota".

Mordechai não perdeu tempo. "A Torá nos ordena que sejamos patrióticos e que rezemos pelo bem do governo" – pensou. "Embora eu saiba que o rei não é lá grande amigo dos judeus, é minha obrigação informá-lo desse conluio."

"Além disso" – concluiu Mordechai – "se o rei for assassinado tão pouco tempo após a coroação de Ester e de minha nomeação para o palácio, poderemos ambos ser suspeitos de traição."

Mordechai passou a informação a Ester, querendo que ela ganhasse o crédito por salvar a vida do rei. Ester, entretanto, reportou tudo ao rei em nome de Mordechai.

Após completa investigação, Bigtan e Têresh foram acusados de um complô para envenenar o rei. Haman, seu bom amigo, tentou em vão salvá-los. Apesar de seus esforços, foram condenados à morte.
Ao assistir os dois pendendo no cadafalso, Haman crispou as mãos com ódio. Culpou Mordechai pela execução de seus amigos e jurou vingança.

Ester não obedecera as instruções de Mordechai para reivindicar o crédito pela descoberta da conspiração. Como não queria que ele soubesse que o tinha desobedecido, conseguiu que o nobre ato de Mordechai não fosse recompensado de imediato.

Ester chamou os escribas reais e ordenou-lhes que registrassem o incidente nos arquivos do palácio. Deveriam anotar que Mordechai merecia uma grande recompensa por salvar a vida do rei.

Acontece que os escribas eram ninguém menos que os filhos de Haman, e fizeram o possível para distorcer a descrição do evento. Mas a verdade pode ser esticada apenas até um certo limite. Por fim, os arquivos do rei declaravam que Mordechai havia salvado a vida do rei e que não recebera uma recompensa.

Na verdade, os eventos todos eram dirigidos por D’us. O rei não daria a recompensa a Mordechai naquele dia, mas quando chegou a hora, este incidente seria bem útil.

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Capítulo VI

Após esses acontecimentos, o rei Achashverosh promoveu Haman. Para o observador, esta decisão poderia parecer estranha. Mordechai, que havia salvado a vida do rei, não fora recompensado, e Haman, que havia defendido os conspiradores, foi elevado a uma posição mais alta. Porém, Achashverosh era muito instável e agia por capricho. De início, havia ficado furioso com Haman por tê-lo aconselhado a matar Vashti. Entretanto, agora que desposara Ester, Achashverosh estava contente por estar livre de Vashti, sentindo-se em débito com Haman por haver este indiretamente lhe trazido Ester. Por isso, o rei recompensou-o generosamente, garantindo-lhe a mais alta posição do reino.

Até então, embora Haman fosse um dos sete conselheiros mor, havia sido o membro de menos prestígio no conselho. Agora era o mais importante. Como prova de sua posição, seu assento estava acima dos outros. Mesmo quando não estava presente às reuniões, a posição de sua cadeira servia como lembrança de seu posto elevado.

Vendo que o rei havia promovido Haman, o povo sentia-se obrigado a mostrar-lhe respeito. Muitos, entretanto, sabiam de suas origens e de sua profissão no passado, e esse respeito não vinha de forma natural.

"Você sabia que Haman era atendente nos banhos e barbeiro antes de se tornar político?" – diziam as pessoas que o haviam conhecido. Havia mesmo aqueles que declaravam ter tido o cabelo cortado por ele.
Para preservar a dignidade da posição de Haman, o rei ordenou que o povo se prostrasse diante dele, concedendo-lhe honras devidas a um Primeiro Ministro. Até mesmo os homens que tinham assento no Portão do Rei, o local de assembléia de todos os mais altos oficiais do reino, foram solicitados a ajoelhar-se perante Haman.

Haman vangloriava-se dessa nova promoção. Tirando vantagem desse poder, pendurou a figura de seu ídolo favorito ao redor do pescoço sempre que desfilava pela cidade. Ao se inclinarem perante ele, estavam também curvando-se ao ídolo.

Haman estava agindo de forma contrária à lei. O Império Persa garantia liberdade de religião, e nenhuma pessoa podia ser forçada a prostrar-se para ídolos contra a vontade.

Não era a lei persa, entretanto, que influenciava a forte resistência demonstrada por Mordechai no Portão do Rei. Ele se recusava a ajoelhar-se perante Haman e a prostrar-se para seu ídolo. Nem ao menos faria uma breve inclinação formal. Como Haman deixara óbvio que qualquer sinal de respeito a ele também incluía seu ídolo, Mordechai não tinha permissão, pela lei da Torá, para fazê-lo, mesmo que sua vida estivesse em risco.
Mordechai não fingia ignorar Haman. Olhando-o diretamente nos olhos, corajosamente recusava-se a arredar pé, criando ali um Kidush Hashem (santificação do nome de D’us), dando um exemplo para todos os judeus.
Os outros oficiais no Portão do Rei ficaram perturbados pelas ações de Mordechai. "Por que desobedece as ordens do rei?" – perguntaram preocupados. "Achashverosh pode pensar que o encorajamos a demonstrar nosso desprazer com suas ordens. Seremos todos acusados e punidos por esta teimosia."

"Prostro-me apenas perante o único D’us" – declarou Mordechai, explicando sua identidade judaica.

Após tentar convencer Mordechai a não brincar com fogo, os servos do rei denunciaram-no a Haman. Queriam testar Mordechai. Estaria realmente disposto a colocar a vida em risco, somente para não inclinar-se perante Haman? Ficaria firme em suas crenças, a despeito do que pudesse acontecer?

Haman não podia acreditar nos relatos sobre Mordechai. "Que coragem!" – resmungou. "Como ousa desafiar as ordens do rei!" Deliberadamente, passou pelo local onde Mordechai estava lotado para ver a verdade com seus próprios olhos.

"A paz esteja consigo" – falou Haman, fingindo ser educado.

"Para o perverso, não há paz" – respondeu Mordechai.

Fervendo de fúria, Haman rilhou os dentes. Contratara agentes para seguir Mordechai e reportar suas ações. Disseram-lhe: "Mordechai é uma pessoa amigável, com um cumprimento gentil para todos que encontra. Saúda até mesmo o mais humilde plebeu." Quando Haman percebeu que Mordechai recusava-se a prestar homenagem somente para ele, sua fúria extrapolou. Estava determinado a vingar-se.

A princípio, Haman tramou matar somente Mordechai. "A alta posição de Mordechai está engasgada na minha garganta. Enquanto estiver no palácio, os judeus sentir-se-ão seguros e seguirão seu exemplo. Pretendo mostrar-lhe logo quem manda em Shushan."

Porém, ao passo que sua fúria se acumulava, Haman decidiu que estava abaixo de sua dignidade matar apenas Mordechai. "Esse povo respeita seus líderes. Se não for Mordechai, será algum outro! Vou dar um fim em todos os sábios. Então, ficarão como carneiros sem pastor. Negligenciarão sua religião e tornar-se-ão assimilados."

"Não" – pensou Haman, reconsiderando – "não é suficiente. Terão ainda sua Torá que ordena explicitamente denunciar os descendentes de Amalek e varrer sua memória! Nós, os agaguitas, descendemos de Amalek! Por essa razão, os judeus são nossos inimigos mortais e seu interminável ódio por nós é uma ameaça contínua. A única solução é exterminá-los todos: homens, mulheres e crianças. E isso é exatamente o que pretendo fazer!"

Tendo tomado uma decisão, Haman seguiu, formulando seu plano maléfico. Ele era mau, mas não tolo. Estava informado sobre os muitos eventos miraculosos da História Judaica e sabia que os judeus tinham um D’us poderoso a seu lado. "Mas pretendo suplantá-lo" – declarou Haman arrogantemente.

Embora seu D’us seja poderoso, às vezes as coisas não vão tão bem para os judeus" – pensou Haman. "Determinarei o tempo astrologicamente mais propício para levar adiante meu plano."

Haman usava um artefato mágico conhecido como "pur". Primeiro, queria estar certo de que seu plano para destruir os judeus era factível. O primeiro "pur" era lançado, usando cubos semelhantes a dados. Mas, ao contrário de dados normais, os números eram arranjados de tal forma que os valores numéricos em lados opostos nos cubos somavam sete. Um cubo tinha lados opostos com os números 1 e 6, o segundo com 2 e 5, e o ter-ceiro com 3 e 4.

Como o "pur" determinaria o destino do povo judeu, Haman usou letras hebraicas1 para adicionar os valores numéricos dos números. Os cubos eram agora 1=t (alef), 6=u (vav), 2=c (bet), 5=v (hê), 3=d (guímel), 4=s (dalet).

Haman usava três dados para cada lance. Na primeira jogada, os cubos mostraram 1-3-3. Haman ficou deliciado, pois percebera que os dados haviam soletrado ddt (alef, guímel, guímel) formando a palavra Agag em hebraico – o nome de seu ancestral. Ansioso, virou o dado ao contrário para conferir que letras estavam na base. Oposto ao t (alef), estava um u (vav), e oposto a cada d (guímel) estava um s (dalet). As três letras na base formaram a palavra sus (David).

"Que boa sorte!" – exclamou Haman extasiado. "Estas letras soletram o nome David. É sinal certo de que meu povo, o povo de Agag, terminará no topo e os judeus, o povo de David, ficarão por baixo."

Agora Haman estava ansioso por determinar a melhor ocasião para exterminar os judeus. "Este ano, qualquer data será ótima" – decidiu. "Na verdade, tudo está indo perfeitamente bem. Eu não teria sonhado com um plano desses antes. O rei jamais teria concordado. Exterminar uma nação inteira enfraqueceria seu reino, e os aliados dos judeus nas outras províncias poderiam vir em sua defesa. Mas agora, o governo do rei está firmemente estabelecido. Tem uma nova rainha. Minha posição foi elevada e o palco está montado."

Mesmo assim, Haman queria conferir novamente para assegurar-se que sua boa sorte estava realmente lhe sorrindo. Lançando outro "pur" para determinar a data exata de levar seu plano adiante, novamente colocou ao sabor do acaso a verificação sobre se estava no caminho certo.

Cortou vários pergaminhos nos quais escreveu os nomes dos doze meses lunares (conforme o calendário judaico). Outro jogo de pergaminhos era numerado de 1 a 354, um para cada dia do ano lunar.

Haman planejou duas jogadas separadas, uma para determinar o mês e outra, o dia. Se coincidissem, saberia que a sorte estava a seu lado. Caso contrário, perceberia que as coisas poderiam não dar certo. Por exemplo, se a jogada dos meses mostrasse Nissan2, e a jogada dos dias mostrasse 100, ficaria claro que o esquema não estava predestinado pelo sobrenatural, pois o 100º dia do ano cai em Tamuz3, não em Nissan.
Haman escolheu seu filho Shimshi para fazer o sorteio. Tão ávido como seu pai, Shimshi tirou um número do primeiro conjunto. Podia-se ler: "Adar"4. Haman fez um sinal para que o filho tirasse um da segunda pilha. Lenta e deliberadamente, pegou um pergaminho e o desdobrou com cuidado. Seus olhos brilharam quando o número apareceu. Era 337, dezessete dias antes do fim do ano.

"Fantástico!" – gritou Haman, saltando de alegria. "É dia 13 de Adar. Funcionou! Vencemos! Os judeus já podem se considerar mortos!"

Shimshi e Haman festejaram o sucesso da loteria. Estavam certos de que Adar seria o mês perfeito. Centenas de anos antes, Moshê havia falecido no sétimo dia de Adar. Obviamente, era uma época inoportuna para os judeus.

Haman também ficou contente que a data lhe desse tempo suficiente para realizar seus planos – quase um ano inteiro. Mensageiros seriam enviados a todas as partes do império com tempo suficiente para todos os arranjos. "Deixe os judeus passarem um ano todo sabendo que estão condenados. Talvez, devido ao medo ou ao desespero, abandonem a religião. Se eu puder forçar os judeus a se assimilarem, será quase tão bom quanto matá-los" – pensou Haman.

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Capítulo VII

Agora a parte mais difícil" – disse Haman. "Tenho que persuadir o rei a concordar com meu plano. Certamente, ele odeia os judeus tanto quanto eu, mas provavelmente recusará por causa do possível dano que o extermínio possa causar ao reino."

Haman sabia que tinha que agir cautelosamente. O rei poderia ter muitas razões para recusar-se a eliminar os judeus. Desempenhavam papel importante na economia do império. Poderiam ter muitos aliados. Também havia a possibilidade de que reagissem, causando tremenda consternação e danos ao reino.

"Além disso" – pensou Haman – "o rei talvez concorde com o plano, mas e a rainha? Ela parece aprovar os judeus. Foi ela que convenceu o rei a nomear Mordechai. Talvez ela se coloque em meu caminho."

"Já sei" – decidiu finalmente. "Não me aproximarei do rei como inimigo declarado dos judeus. Nem ao menos mencionarei o nome "judeu". Apenas descreverei um povo rebelde que está contra o bem do reino e precisa ser exterminado. O rei certamente concordará que tal grupo deve ser destruído.

"Quando os escribas compuserem o decreto de extermínio, posso facilmente adicionar que os judeus são o grupo visado. Uma vez que o decreto seja selado pelo rei, não pode ser alterado. Ninguém poderá salvá-los."
Antes de se aproximar do rei, Haman ensaiou seu discurso com cuidado. Queria desesperadamente o consentimento do rei; por isso, escolheu bem as palavras, tentando não deixar passar nada que pudesse fazer o soberano discordar.

Armado com argumentos e acusações, apresentou seu caso ao rei. "Majestade," – começou – "há um povo que está disperso e espalhado por todas as nações do seu império. Eles se consideram um povo distinto, e acham que somos impuros. Não comem nossa comida e não bebem nosso vinho. Na verdade, se cair uma mosca num copo de vinho, eles a removem e bebem o resto. Mas se Sua Majestade tocar nesse vinho, o derramarão e teimosamente recusar-se-ão a tomá-lo. Até mesmo esfregarão o copo antes de usá-lo novamente."

O rei Achashverosh ficou profundamente ofendido. Haman astuciosamente conseguira preparar o espírito do rei para lançar suas próximas reclamações sobre os judeus.

"Este povo tem suas próprias festas e costumes bizarros. São preguiçosos e nunca trabalham por completo. Enquanto nosso povo trabalha duramente, estão sempre celebrando um dia de Shabat ou algum outro tipo de dia festivo, no qual não podem fazer nenhum trabalho. Porém, quando acontece um feriado nosso, o ignoram por completo. É óbvio que não querem nada conosco."

O rei inclinou-se para a frente. "Onde Haman está tentando chegar?" – pensou. "Tal povo definitivamente não parece ser de grande vantagem para meu reino; porém, meu império é feito de muitos povos e nações."

Como se lendo os pensamentos do rei, Haman continuou: "Não há nenhum outro grupo como esse. Existem muitas outras nacionalidades no reino, mas todos confraternizam uns com os outros e até mesmo casam-se entre si. Este grupo em particular continuamente se recusa a se assimilar. Até mesmo mutilam os filhos, marcando os corpos com a circuncisão para ter certeza de que não farão casamentos mistos. Normalmente, os refugiados tentam se encaixar em seu novo país e ser amigáveis para com os outros. Não esse povo. Faz tudo ao seu alcance para permanecer diferente. Tentam persuadir as pessoas de que nossos deuses não são bons e que apenas seu D’us deve ser venerado. Estão minando a religião nacional."

O desprazer de Achashverosh com o povo descrito por Haman estava aumentando. Como podia manter um grupo tão perigoso em seu império?

Haman continuou: "Não têm respeito nenhum pelas leis do rei. Todas as outras nações no império incorporaram estas leis em suas constituições. Este grupo não adicionou sequer um decreto do monarca à sua lei."

Nesse ponto, a ira do rei havia sido suficientemente provocada. Assim, Haman espertamente desvelou seu plano. "De nada vale ao rei manter esse povo. A menos que deseje que permaneçam um eterno espinho, Majestade, não tem outra escolha senão matá-los."

O rei assentiu, finalmente compreendendo a intenção do primeiro ministro. Embora estivesse em concordância com o plano, sabia que levá-lo a termo não seria tarefa fácil.

"Acha realmente que esse povo horrível, embora mereça ser eliminado, simplesmente caminhará como ovelhas para o matadouro?" – perguntou o rei. "Não quero desencadear uma revolução em meu império."

"Muito improvável, Majestade" – Haman assegurou-lhe. "Veja, estas pessoas estão espalhadas por todo o império. Existem uns poucos numa cidade, uns poucos mais em outra. Não precisa se preocupar de que revidem: estão espalhados demais para que possam desfechar um ataque unificado. Até que consigam se juntar para elaborar um plano de defesa, serão apenas uma triste memória.

"Além disso" – continuou Haman – "estão constantemente discutindo e brigando entre si. Nunca concordam sobre coisa alguma, e certamente não para começar uma rebelião. Mesmo seus sábios discordam uns dos outros. Pode-se achar costumes diferentes entre eles. Tenho eu próprio observado isso. Algumas dessas pessoas se apercebem de minha presença e prestam-me os devidos respeitos, mas uns poucos teimosamente se recusam a fazê-lo. Mesmo em tempos de perigo, nunca se unem."

O rei ainda não estava convencido. "Com certeza os amigos, vizinhos e concidadãos virão para ajudá-los. Terei uma rebelião se espalhando como fogo através de meu reino."

"De forma alguma" – replicou Haman com um esgar. Mantêm-se tão acima de todos que nenhuma outra nacionalidade os ajudará. Ninguém tem uma boa palavra sobre eles. Ninguém pode tolerá-los. Se Sua Majestade eliminar este grupo, nenhuma nação se levantará para defendê-los. Pelo contrário, todos tecerão elogios e proclamarão um feriado."

"Não vejo como o extermínio de grande porcentagem de cidadãos possa ser útil ao império" – protestou o rei, fracamente.

Haman estava ficando impaciente com a resistência do rei. "Majestade, se está verdadeiramente interessado no bem-estar do reino, deve fazer com que este povo indigno seja destruído imediatamente. Não são essenciais ao império. São totalmente improdutivos. São tão estranhos à nossa cultura, que em nada contribuem. Além disso, estão escassamente distribuídos pelo reino; assim, se forem eliminados, dificilmente alguém sentirá falta" – disse.

O rei ainda não estava bem convicto. O lado moral de sua natureza pedia uma consideração mais humana.
"Os adultos parecem maus, mas talvez as crianças devessem ser salvas?" – sugeriu, hesitantemente.
Está claro que Haman tinha uma resposta pronta. Não desistiria de uma chance de se vingar do povo que recebera ordem de destruir sua nação, os agaguitas.

"Não, não, Majestade!" – declarou. "Quando esse povo ataca seus inimigos, mata homens, mulheres e crianças da mesma forma. Dê a eles uma dose de seu próprio remédio, exterminando-os completamente!"

O rei recostou-se no trono e deu um suspiro satisfeito. O plano de Haman o agradara. Já tinha secretamente adivinhado quem era "esse povo". Percebeu que Haman se referia aos judeus, e sentia mais ira em relação a eles que seu próprio primeiro ministro.No entanto, o rei hesitava. Durante toda a conversa, Haman não havia tocado no ponto que era na verdade o cerne da questão. "Os judeus podem ser uma nação inferior, mas todos sabem que têm um D’us poderoso. Sei muito bem o que aconteceu com todos os reis que tentaram prejudicar os judeus."

Lembrou-se com um tremor da descrição dos últimos infelizes dias de Nevuchadnêtsar. Belshatsar também tivera um triste fim. "O D’us dos judeus pode ser muito perigoso" – pensou sinistramente.

Achashverosh meditou: "Sei como defender-me e isentar-me de qualquer responsabilidade por este plano. Haman nunca mencionou a palavra ‘judeu’. Vou levar este plano adiante, alegando que nunca soube quem eram os rebeldes. Estava apenas cumprindo meu dever, protegendo o império de elementos perigosos."

Haman permitiu que o rei pensasse sem interrompê-lo. "Afinal, o rei precisa de tempo para amadurecer a idéia" – pensou. Quando percebeu a mudança no humor do rei, agiu rápido e apresentou o argumento final.
"Majestade, não pense que esta será uma tarefa difícil e que terá de enfrentar grandes batalhas contra esse povo. Uma assinatura sua e serão eliminados. Têm suficientes inimigos que estarão dispostos a fazer o trabalho.

"Contribuirei pessoalmente com 10.000 lingotes de prata a serem depositados no tesouro real. Os fundos cobrirão quaisquer despesas