Nada poderia parecer mais absurdo. O Egito dos faraós era o maior império do mundo antigo, e os hebreus não eram nada –escravos, sem poder, sem nação. Mesmo assim foram eles, e não os faraós, que sobreviveram, até hoje. Como isso aconteceu?

 
 
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  Contando histórias  
       
 

1.
Am Israel Chai;
O povo de Israel está vivo

por Rabino Chefe da Inglaterra, Professor Jonathan Sacks

Há três mil e trezentos anos, um grupo de escravos foi libertado e começou aquilo que Nelson Mandela chama de longa marcha para a liberdade. E desde então, nesta época do ano, revivemos a história deles naquilo que chamamos de Pêssach, a Festa Judaica do Êxodos; e logo estaremos celebrando-a, no início do próximo mês.

Em mim, isso provoca uma fascinante questão. Imagine que pudéssemos viajar de volta no tempo e encontrar o grande faraó, o próprio Ramsés II. Sei o que eu diria. "Ramsés, tenho uma notícia boa e outra má. A boa é que um povo que existe hoje ainda estará vivo daqui a milhares de anos. A má notícia é: este povo não será o seu. Será aquele grupo de escravos lá fora, construindo seus grandes templos, o povo que você chama de habiru ou hebreus, os Filhos de Israel."

Nada poderia parecer mais absurdo. O Egito dos faraós era o maior império do mundo antigo, e os hebreus não eram nada – trabalho escravo, sem poder, nem ao menos eram uma nação. Mesmo assim foram eles, e não os faraós, que sobreviveram, e ainda o fazem nos dias de hoje. Como isso aconteceu? A resposta, creio eu, é esta.

O Antigo Egito e o Antigo Israel foram dois povos que fizeram a mais decisiva de todas as perguntas. Como, neste breve espaço de tempo, podemos criar algo que perdure? Como adquirir a imortalidade? Os egípcios deram uma resposta. Construir grandes monumentos de pedra – templos, pirâmides – que sobrevivam aos ventos e às areias do tempo. E assim o fizeram. Aquilo que construíram ainda está lá. Mas apenas os edifícios, não a civilização que certa vez deu-lhes vida.

Os israelitas deram uma resposta diferente. Você não precisa criar monumentos. Tudo que precisa é contar a história, geração após geração. Precisa gravar seus valores no coração de seus filhos, e eles nos filhos deles, assim continuará a viver dentro deles, e assim por diante até o fim dos tempos. Precisa construir uma civilização ao redor do lar, da escola, e educação que seja como uma conversa entre as gerações. Precisa colocar as crianças em primeiro lugar. Isso é o que os judeus fizeram por milhares de anos: e eis por que estamos aqui hoje.

E se há uma mensagem que eu gostaria de gritar a plenos pulmões, seria esta. Preocupe-se com o casamento, paternidade e família. Vamos passar tempo com nossos filhos, contando-lhes nossa história, passando a eles nossos sonhos e esperanças. Não fazemos isso o bastante nos dias de hoje; e isso faz a diferença. É isso, e apenas isso, que mantém uma civilização viva.


2.
Era uma vez…


Hagadá significa "contar" e isso é o que fazemos à mesa do sêder – contamos uma história. O tipo de história mais antiga e mais popular que existe – aquela com Final Feliz. Eis como o Talmud nos instrui a conduzir o sêder: "Comece com a parte desagradável, e termine com a parte boa."

Como é costume no Talmud, os Sábios, embora concordem em princípio, discutem os detalhes. Shemuel diz que o mau começo é: "Éramos escravos do faraó do Egito", e o final bom é: "D'us tirou-nos de lá com uma mão poderosa e o braço estendido."

Mas nossa história inclui um quadro mais amplo, começando com "No princípio, nossos ancestrais adoravam ídolos" e culminando com nossa eleição como povo escolhido no Monte Sinai, com a outorga da Torá.

Portanto, que história contamos no sêder? Ambas, é claro, e esta é uma das razões pelas quais demoramos tanto até chegar à hora de servir o primeiro prato.

Todas as criaturas vivas comunicam-se uma com as outras de alguma forma. Porém apenas seres humanos contam histórias. Somente homens e mulheres contemplam uma diversidade de fatos, eventos e experiências no decorrer de dias, anos, até mesmo séculos, isolam uma quantidade deles na mente, traçam linhas de causa e significado entre eles, criando assim uma história e uma linha de pensamento – um pedaço da vida que significa algo que leva a algum lugar. Eis por que, explicam os mestres chassídicos, o Talmud considera "o trabalho/a armadilha da palavra" o mais básico dos componentes do papel especial do homem como "um parceiro de D'us na Criação."
D'us criou um mundo assombroso, intricado, e de muitas maneiras ainda indefinido; nossa narrativa da história completa a obra da Criação, conferindo-lhe coerência e significado.

"Era uma vez", há muitos anos, quando éramos pequeninos, sabíamos a importância da história. Nós avaliávamos o quão importante é o ato de contar histórias para quem e para aquilo que somos, para que nosso trabalho torne nosso mundo repleto de sentido e o leve a algum lugar, e se repita a cada ano sendo passado adiante aos nossos.

Envelhecemos e ficamos cansados. Muitas vezes esquecidos. Por isto nesta época devemos reviver a história mais uma vez. Eis por que precisamos ter muitas e muitas crianças no sêder.

     
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