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  A ressurreição dos mortos  
   
 

Aqueles que nascem estão destinados a morrer, e aqueles que morreram estão destinados a viver.

Ética dos Pais, 4:22

Um dogma básico da Fé Judaica é a crença de que aqueles que morreram serão novamente trazidos à vida. De fato, "a Vivificação dos Mortos" (Techiat Hametim), é um dos treze princípios cardeais, ou "alicerces," do Judaísmo.

O senso comum acredita que a idéia é mais resistente que sua encarnação, o conceito mais perfeito que qualquer conceitualização, que o espírito é superior à matéria. Isso quer dizer, portanto, que a alma é eterna e invencível, ao passo que o receptáculo físico, o corpo, é finito, temporal e destinado ao pó. Isto positivamente é raciocínio teológico padrão. Mesmo assim o princípio da Vivificação dos Mortos é contrário a este argumento. Pois, se o corpo nada mais é que um recipiente temporário e falho para a alma, por que recompô-lo e revivê-lo?

O aleijado e o cego

Em seu nível mais básico, a futura reunião do corpo e da alma é crucial à realização de outro dos Treze Alicerces, o princípio de "Recompensa e Punição." Nas palavras de nossos Sábios, "D'us não priva nenhuma criatura do que lhe é devido." Não há pontas soltas na criação de D'us: ao final, todo o bem deve ser recompensado, todo o negativo deve ser corrigido. Portanto, como a vida é um empreendimento conjunto do corpo e da alma, estes serão reunidos para experimentar os resultados de suas falhas e conquistas.

Uma analogia no Talmud ilustra este ponto:

Houve certa vez um rei que nomeou dois deficientes para guardas em seu pomar. Um era cego e o outro era aleijado. Os dois conspiraram para roubar o amo: o aleijado subiu nos ombros do cego e dirigiu-o às frutas. Quando o rei os confrontou, o cego disse: "Como roubaria se não posso ver?" enquanto que o guarda aleijado argumentou: "Como eu poderia ter pegado, se não alcanço as frutas?" Portanto, o rei colocou o aleijado sobre os ombros do cego e julgou-os como se fossem só um.

Esta é a história da missão do homem na vida. Neste mundo material, o corpo físico do homem é apto de corpo, mas cego. Possui todas as ferramentas necessárias para cumprir o propósito de sua criação - tudo, exceto a visão para usar estas ferramentas da maneira apropriada. Os desejos egoístas e animalescos do corpo distorcem suas prioridades e nubla sua percepção da verdade. A visão para distinguir o certo do errado deve ser proveniente da alma, a centelha de divindade dentro do homem que nunca perde de vista o Criador e Seu propósito. Mesmo assim a alma é incapaz por si mesma. Para cumprir sua missão na terra, precisa de mente, coração, mãos e pés para lidar com a realidade física. Apenas quando corpo e alma combinam-se e se integram para formar a entidade chamada de "ser humano," podem eles vigiar e desenvolver o "pomar" que lhes foi confiado conforme os planos de seu Amo.

Neste mundo imperfeito e obscuro, ainda não podemos contemplar e apreciar os frutos de nosso trabalho. Mas na era de Mashiach, as realizações acumuladas de todas as gerações da História atingirão a suprema perfeição. E como "D'us não priva nenhuma criatura do que lhe é devido," todos os elementos que estiveram envolvidos no cumprimento de Seu objetivo na criação estarão reunidos para captar e vivenciar o mundo perfeito que seus esforços combinados atingiram.

Três mundos

Tudo isso, entretanto, apenas explica por que a Ressurreição deve acontecer em algum ponto do futuro. Mesmo assim, por que é um princípio básico da Fé Judaica? A Torá inclui milhares de crenças, práticas e idéias; destas apenas treze merecem a designação de "fundação," sugerindo que é sobre elas que repousa todo o corpo do Judaísmo - que sem qualquer uma delas, haveria alguma coisa faltando em tudo que um judeu acredita e faz.

Para entender a centralidade da Ressurreição para todo o Judaísmo devemos primeiro examinar as opiniões de dois grandes pensadores judeus, Maimônides (Rabi Moshê ben Maimon, 1135-1204) e Nachmânides (Rabi Moshê ben Nachman, 1194-1270), sobre o que constitui a suprema realização do propósito de D'us na criação.

Falando de forma geral, a totalidade da existência está dividida em três períodos:

a - Nossa realidade atual (Olam Hazê).

b - A Era de Mashiach (Yemot Hamashiach)

c - O Mundo Vindouro (Olam Habá).

Nosso mundo atual é cenário de um conflito cotidiano entre o bem e o mal. E como acontece em todo conflito, há altos e baixos - épocas quando o animal dentro do homem extrai dele o melhor, e épocas nas quais sua bondade inerente triunfa. Portanto, o nosso é um mundo que permite a existência da ganância, ódio e sofrimento. Embora D'us tenha criado o mundo para refletir Sua infinita bondade e perfeição, também ocultou-o com um véu corpóreo - um véu que esconde e distorce sua verdadeira natureza, dando ao homem a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Assim, o homem tanto pode trabalhar para trazer à luz o bem inerente a si mesmo e ao mundo, ou pode agir para intensificar a ilusão do mal.

Entretanto, toda nossa vitória moral, por refletir a natureza quintessencial da realidade, é eterna e cumulativa, ao passo que nossas ações negativas são apenas temporárias e distorções superficiais da verdade. Por isso nossa vida atual terminará por resultar na segunda fase da existência, a vida livre de conflitos da Era de Mashiach.

A Era de Mashiach não é um mundo sobrenatural; é o mesmo mundo que conhecemos hoje - sem a corrupção da natureza humana. O homem terá dominado o egoísmo e os preconceitos; um harmonioso mundo comunitário devotará suas energias e recursos ao bem comum, e à busca por contínuo crescimento em sabedoria e perfeição. Em resumo, a Era de Mashiach representa a conquista pelo homem do pico de seu potencial natural.

Mas as próprias leis da natureza são finitas e restritivas. Portanto, um mundo naturalmente perfeito não pode ser considerado como refletindo verdadeiramente a perfeição do Criador. A morte, por exemplo, é um fenômeno dos mais naturais, um fenômeno conectado com a natureza finita e transitória do físico - e a antítese da realidade infinita e eterna de D'us. De fato, o mundo como D'us criou inicialmente era livre da morte e da dissolução, causadas pelo primeiro pecado do homem. Portanto há muito na própria natureza que é uma forma sutil de "mal" - i.e., parte do véu que obscurece a verdade Divina.

Assim, a Era de Mashiach é também um período de trabalho e conquistas do homem, embora seus desafios sejam bem diferentes de nossos conflitos atuais. Hoje, nossas vidas estão completamente envolvidas em combater o negativo: alimentar os famintos, esclarecer os ignorantes e trazer paz às facções da guerra. Então, os aspectos mais espalhafatosos do mal tendo sido dominados, lutaremos para atingir as alturas ainda maiores no domínio do bem em si mesmo - lutar para exceder as limitações que definem nossa existência natural.

A Era de Mashiach será seguida pela definitiva realização da visão de D'us de Sua criação - um mundo que expresse Sua pura perfeição. Um mundo assim, por definição, está além dos limites da natureza como a conhecemos. Este é o Mundo Vindouro, o mundo da vida eterna.

Duas definições de perfeição

Há um lugar para a fisicalidade em um mundo assim?

Esta é a substância do debate entre Maimônides e Nachmânides. Maimônides é da opinião que a suprema utopia é um mundo de total espiritualidade. "No Mundo Vindouro," escreve ele, "não há formas físicas ou corpos - apenas almas... Portanto, não há comer ou beber, ou nenhuma das coisas que os corpos necessitam no mundo atual. Como também não acontecerão os eventos que ocorrem com os corpos no mundo atual... [as almas] apreciarão a radiância da Divina Presença - conhecerão e compreenderão a verdade Divina, que não pode ser conhecida enquanto se está no corpo escuro e inferior... Esta é uma vida sem morte, pois a morte é apenas uma ocorrência do corpo... Esta é a recompensa da qual não há maior recompensa, e o bem do qual não há bem maior..."

Onde e como a Vivificação dos Mortos figura nisso tudo? Como explica Maimônides em sua Carta sobre a Vivificação dos Mortos, a reunião dos corpos e almas de todos que viveram durante todas as gerações de nosso mundo atual é uma parte importante da Era Messiânica, quando toda a criação, incluindo seus elementos físicos, atingirão a definitiva perfeição. Mas isto será apenas o definitivo deles - não o definitivo. Os mortos serão revividos para um vida perfeita - tão perfeita como uma realidade finitamente física pode ser. Porém esta vida também estará sujeita à natureza dissolutiva de toda matéria física. Esta vida, também, terá um fim, para ser seguida pela perfeição espiritual do Mundo Vindouro.

Nachmânides discorda. A realização definitiva da criação de D'us não é um mundo espiritual de almas, mas um mundo no qual espírito e matéria juntos expressam a perfeição de seu Criador - uma perfeição que é tanto toda transcendente e toda abrangente. Segundo Nachmânides, a ressurreição dos mortos levará à vida física eterna, e introduzirá o Mundo Vindouro - um mundo povoado por almas revestidas de corpos físicos.

Os ensinamentos da Cabalá e Chassidismo concordam com as definições de perfeição de Nachmânides. Citando o axioma que "quanto mais elevado é algo, mais pode descer," o ensinamento chassídico explica que a suprema expressão da verdade Divina é que não há aspecto da realidade no qual não possa ser encontrada. Considerar o físico finito demais e inferior demais para que a perfeição de D'us possa ser expressar, é dizer que Ele pode expandir somente até este ponto, e não além disso. Mas a essência de D'us transcende todos os rótulos e definições. Categorizá-Lo como "espiritual" é uma definição tão simples quanto atribuir-Lhe propriedades físicas, D'us não o permita. Ele não é nem um nem outro (pois criou a ambos), e ambos o servem igualmente.

Em nossa realidade atual, a natureza material de nosso mundo é talvez a causa de uma maior ocultação da Divindade que da espiritualidade da alma; mas no Mundo Vindouro, a própria natureza provará a mais potente declaração da verdade toda abrangente de D'us. A intensidade de uma lâmpada é medida pelo ponto mais distante que sua luz atinge. A verdadeira marca do gênio é a habilidade de explicar a idéia mais profunda à mente mais simples. Da mesma forma, um mundo físico que transmita a verdade Divina é o mais poderoso indicador da infinita perfeição de D'us.

De fato, este é o propósito da totalidade da criação de D'us: que o homem, dominando uma existência física, supere as imperfeições do material e traga à luz sua verdadeira natureza e função - expressar a bondade e perfeição do Criador.

 

 

 
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