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Publicado no Times de agosto, 2004
Sou um religioso fundamentalista, e orgulho-me bastante disso.
Em nossa cultura abrasiva, na qual às vezes parece que se precisa
de pós-graduação em grosseria, a pior coisa que se
pode chamar alguém é de fundamentalista. Você crê?
Deve ser louco. Você reza? Deve ser um fanático. Cumpre as
leis religiosas? Você deve ser perigoso. Não admira que um
nome bem conhecido na imprensa é citado como tendo dito certa vez:
"Não lidamos com D’us".
Espreitando sob a superfície desses derrotados está o medo
do fundamentalismo. Aqueles que acreditam nos fundamentos da fé
estão, como parece que presumimos, vivendo no passado, são
hostis ao presente, incapazes de tolerância, veementes em sua condenação
aos não-religiosos, e capazes de violência. Esta é
uma opinião terrivelmente parcial e nos causará, a longo
prazo, muitos danos.
O
D’us de Avraham é um D’us de amor, não
de guerra; perdão, não vingança; humildade,
não arrogância; hospitalidade, não hostilidade.
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Para ter certeza, toda fé tem episódios em
seu passado dos quais deveria se envergonhar. Esta foi a mensagem dos
profetas. Toda escritura sagrada tem passagens que, se forem interpretadas
erradamente, podem levar ao ódio. É por isso que os judeus,
e não somente os judeus, acreditam que os textos sagrados precisam
de comentários. Qualquer sistema de crença pode se enganar.
Isso se aplica a ideologias seculares tanto quanto a religiosas. Os dois
maiores substitutos para a fé no século 20, o Nazismo e
o Comunismo, começaram com sonhos de utopia e terminaram em pesadelos
infernais. A diferença é que as religiões contêm
algo que as alternativas seculares raramente possuem: o conceito de arrependimento,
uma disposição de admitir que erramos. É por isso
que as ideologias seculares morrem, mas a fé religiosa sobrevive.
Não, o que está errado com a palavra "fundamentalismo"
é sua presunção de que os fundamentos da fé
são perigosos. Pelo contrário, a religião se torna
perigosa quando nos esquecemos de seus fundamentos. O D’us de Avraham
é um D’us de amor, não de guerra; perdão, não
vingança; humildade, não arrogância; hospitalidade,
não hostilidade. Avraham luta e reza pelo povo de sua geração,
embora sua fé não seja a de Avraham. Ele recebe estranhos
em sua tenda e faz um tratado de paz com seus vizinhos. Este é
o ancestral que judeus, cristãos e muçulmanos têm
em comum. Estes são os fundamentos aos quais somos chamados.
Há uma forte versão do liberalismo que afirma
que a única maneira de criar uma sociedade livre é por meio
da dúvida. Como não estamos certos, não impomos nossas
certezas sobre os outros. Como podemos estar errados, damos às
pessoas espaço para discordarem. Isaiah Berlin terminou um de seus
ensaios mais importantes com uma citação de Joseph Schumpeter:
"Perceber a validade relativa das próprias convicções
e mesmo assim defendê-las sem vacilar é o que distingue um
homem civilizado de um bárbaro."
Se
eu alego ter o direito de praticar minha fé com liberdade,
posso negar o seu direito?
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Sou tocado por esta idéia. É genuinamente
nobre. Mas no final, ela falha. Se nossas convicções são
apenas relativamente válidas, por que defendê-las sem vacilar?
Se a bondade é apenas relativamente boa, por que se opor à
crueldade, que é apenas relativamente má? Se tudo o que
temos é a dúvida, logo nos encontraremos na situação
descrita de forma memorável por Yeats: "O melhor carece de
toda a convicção, ao passo que o pior está repleto
de apaixonada intensidade." O relativismo não é defesa
da liberdade.
Outro filósofo de Oxford, John Plamenatz, esteve muito mais perto
da verdade quando enfatizou que a moderna doutrina da liberdade nasceu
no século 17, numa época de crenças religiosas fortes
e conflitantes. "A liberdade de consciência" – escreveu
ele – "nasceu não da indiferença, não
do cepticismo, não do mero liberalismo, mas da fé."
Por quê? Porque as pessoas que se preocupavam muito com suas próprias
convicções religiosas terminaram por perceber que outras,
que tinham convicções diferentes, também se preocupavam
com as suas próprias. Se eu alego ter o direito de praticar minha
fé com liberdade, posso negar o seu direito? Foi assim que nasceu
o liberalismo europeu, não através do relativismo, mas na
crença religiosa de que D’us não deseja que imponhamos
nossa fé aos outros pela força.
A única defesa contra o perigoso fundamentalismo é o contra-fundamentalismo:
a crença, enraizada em nossos textos sagrados, na santidade da
vida e na dignidade do ser humano, no imperativo da paz e na necessidade
de justiça temperada pela compaixão. Não somos concatenações
cegas de genes buscando interminavelmente se replicar sem outro propósito
que não o da sobrevivência. Estamos aqui porque fomos criados
em amor, e cumprimos nosso propósito criando em amor.
Estas são as crenças que a maioria dos judeus, cristãos
e muçulmanos compartilham, assim como pessoas de outras fés
ou de nenhuma fé. Estes são os verdadeiros fundamentos.
O que importa agora é que eles, não seus opostos, prevaleçam.
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