Simon Wiesenthal: A consciência do Holocausto  
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O mundo chora a morte de Simon Wiesenthal, "a consciência do Holocausto". O homem corajoso e obstinado que empenhou-se durante toda sua vida em perseguir e levar à Corte de Justiç

Recebendo o título de "doutor honoris causa" em Praga - abril /1997

a os criminosos nazistas, ficando conhecido como "o caçador de nazistas", faleceu nesta terça-feira, aos 96 anos dormindo em sua casa em Viena (Áustria). Será enterrado nesta sexta-feira (23) em Israel com todas as honras que merece após diversas homenagens recebidas em Viena.

Nascido em 31 de dezembro de 1908, em Buczacz, situado na Galícia (Província do império austro-húngaro, hoje Polônia), que abandonou aos sete anos por causa da presença dos cossacos, Wiesenthal estudou arquitetura em Lemberg (Lwow, cidade da Galícia que passou a fazer parte da antiga União Soviética, em 1945) e, depois, em Praga (República Tcheca).
A chegada das tropas hitlerianas atormentou sua vida. Preso em 1941, foi internado em cinco campos de concentração, entre eles Buchenwald e Mathausen, de onde sairia no dia 5 de maio de 1945.

Quando acabou o Holocausto em 1945 e todos voltaram para casa para esquecer, Wiesenthal ficou para trás para lembrar. Ele não esqueceu. Tornou-se o representante vivo das vítimas, determinado a levar os perpretadores dos maiores criminosos da história para a Corte de Justiça.
Em 1947, fundou em Linz, ao oeste de Viena, um Centro de Documentação Judaica após ter sobrevivido a 12 campos de concentração e extermínio e ser libertado por tropas americanas em Mauthausen, na Áustria, reunindo o maior acervo de informações sobre o destino dos judeus e de seus torturadores.

"Sua nomeação não foi anunciada em entrevista coletiva, nem por algum presidente ou primeiro-ministro. Simplesmente assumiu esse trabalho. Foi um trabalho que ninguém quis", disse uma nota emitida pelo site do Dokumentationzentrum de Viena, embrião dos centros Wiesenthal espalhados pelo mundo.

Cemitério judaico de Eisenstadt pichado (Áustria - 1992)

"A missão era impressionante. O desafio, imenso e incalculável. A causa possuia poucos amigos. Os aliados se concentravam na Guerra Fria, os sobreviventes tentavam recompôr suas destroçadas vidas e Wiesenthal estava sozinho em seu papel como perseguidor e detetive ao mesmo tempo", acrescenta a publicação oficial de sua organização. Para Simon Wiesenthal o importante era estar sempre alerta e, com sua vigilância, evitar que pudesse repetir-se a mais terrível época da História.

 

Sobrepujando a indiferença e apatia em que o mundo se abateu, Wiesenthal ajudou a levar 1100 criminosos nazistas à justiça. Em suas memórias publicadas em 1988 sob o título "Justiça, não Vingança", o que seria o lema de sua vida, Wiesenthal afirmava que "quando as pessoas olharem para trás na história, devem saber que os nazistas não escaparam sem punição pelo assassinato de milhões de seres humanos.No livro ele conta seus esforços para mostrar como, incansavelmente, perseguiu e desmascarou os criminosos, com suas novas identidades, em todo o mundo.

Em abril de 2003, quando anunciou sua retirada da vida pública e o fim de sua missão, Wiesenthal declarou à imprensa que havia encontrado e sobrevivido a todos os assassinos que perseguiu. Na ocasião, ele já considerava praticamente impossível que, por motivos de idade e saúde, os poucos criminosos de guerra nazistas que tinham conseguido escapar da Justiça pudessem chegar a ser processados.

O episódio "Adolf Eichmann"

Adolf Eichmann (1906-1962), executor da chamada "solução final" de Adolf Hitler para o povo judeu, alto oficial das temidas SS, responsável por organizar o transporte para os campos de extermínio de milhões de judeus de toda a Europa tornou-se sua "presa" mais famosa. Wiesenthal trabalhou exaustivamente até encontrar uma pista na Argentina, onde Eichmann se escondeu após a guerra com o nome falso de Ricardo Clement. Wiesenthal, então, entregou ao Mossad [serviços secretos de Israel] a localização de Eichmann (1960), que seqüestrou o criminoso e o transferiu para o Estado de Israel, onde foi processado, condenado à morte [única condenação desse gênero no país] e executado na forca em 31 de maio de 1962.

Wiesenthal com foto do nazista Walter Rauff em 1973

Depois da execução de Eichmann em Israel, em 31 de maio de 1962, Wiesenthal transfere para Viena o centro, que também se propõe a combater o anti-semitismo e todas as formas de preconceitos e revisionismo. "Os assassinos da memória preparam as condições para os assassinatos de amanhã", explicava outros conhecidos criminosos de guerra nazistas que foram processados graças a seu trabalho foram o alemão Karl Silberbauer, responsável pela deportação da menina judia Anne Frank, e o austríaco Frank Stangl, comandante do campo de extermínio de Treblinka.

"O que fiz foi pelos jovens e pelos que morreram porque continuei com vida, e este privilégio implica em um dever", comentou certa vez o sobrevivente do campo de extermínio de Mathausen (Áustria).

Wiesenthal frequentemente era questionado sobre qual o motivo que o levara a se tornar um caçador de nazistas. Segundo uma reportagem publicada por Clyde Farnsworth na revista the New York Times (fevereiro,1964), Wiesenthal certa vez foi passar um Shabat na casa de um ex-interno de Mauthausen, na época, um joalheiro de sucesso. Após o jantar, seu anfitrião lhe indagou: "Simon, se você tivesse se dedicado à construção de moradias, você teria se tornado um milionário. Por que não fez isto?" "Você é um homem religioso", respondeu Wiesenthal, "Você acredita em D’us e na vida após a morte. Eu também acredito. Quando chegarmos ao outro mundo e encontrarmos os milhões de judeus que morreram nos campos e eles nos perguntarem: ‘O que fizeram?’, haverá muitas respostas. Você dirá: "tornei-me um joalheiro", outro falará, "Fui contrabandista de café e cigarros americanos", um outro responderá, ‘Construi casas’, mas eu direi, ‘Não me esqueci de vocês.’

 

 

     
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